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Quinta-feira, 29.06.17

ABSTRATO 2 (O Operário)

 

 

(Transcrição parcial da obra, em edição, "ETERNISMO DEPOIS O HOMEM CRIOU DEUS".

Autor: F P Joshué.  29-06-2017- 11-02.)

...//...

 "ETERNISMO"

DEPOIS O HOMEM CRIOU DEUS

 

CAP. I O OPERÁRIO

 

 

João, tomava o operário pelas cinco e vinte da manhã e entrava no “compartimento sete”.

O Ti jacinto já ali permanecia sentado, dizia-se que não ia a casa à vários anos e que ali mesmo dormia contra as regras da C P. Porém tinha a complacência do chefe Jesus Corado, que fingia não o ver, ao passar revista ao comboio, certificando-se que tudo estava em conformidade, para nova viagem na madrugada seguinte.

Também Abel, entrara na anterior estação de Mouriscas e já dormitava sentado na frente do velho Jacinto. Numa marcha e via normal, bastariam seis; sete minutos, para o comboio percorrer o espaço entre aquela estação e Alferrarede, onde habitualmente João, tomava o operário.

Porém o traçado serpenteante, transpondo os gargalos afunilados das enseadas, percorrido quase na totalidade sobre velhas pontes de ferro, em velocidade moderada, em múltiplos e constantes ciclos de; -acelera e trava.- obrigavam a velha e corajosa “033”, a gastar cerca de trinta minutos para percorrer os seis kilómetros que separam ambas as estações.

Sempre a assoprar, a lançar vapores e a engrossar as neblinas nos profundos vales do Tejo, o estridente, agudo e prolongado silvar ecoando pelas encostas escarpadas, anunciará aos mais velhos, em aldeias distantes, a eminente chegada das chuvadas de Outono.

Ao chegar à estação do Rossio ao Sul do Tejo começava a festa, se na estação anterior tinham entrado cerca de vinte e tal operários, era ali que a maioria tomava o trem e se dirigia sempre aos lugares habituais.

Salvo no caso de um passageiro ocasional ter ocupado o lugar, todos viajavam no mesmo compartimento e com os mesmos companheiros.

Era numa ou noutra destas duas estações, que João Corda, entrava a correr no velho trem de ferro.

João, gostava de contar anedotas, participar em jogos e até cantarolava menos mal, porém nos últimos tempos andava muito apreensivo e estava decisivamente comprometido com o “sete”.

Não mais procurando outro compartimento. Passava a maior parte do tempo, a ler e a escrever algo de muito enigmático.

Procurava viajar solitário ou refugiava-se no seu habitual compartimento, na maior pacatez, onde habitualmente viajavam os mais dorminhocos.

Hoje, João Corda, tomara o seu habitual lugar no “sete”.

Além do Velho Jacinto, e do Abel, também o Sr. João Rosa, procurara aquele compartimento, por ser um dos mais adequados para quem pretendia recuperar de uma noite mal dormida, ler um livro, estudar ou conversar.

Também hoje excecionalmente ali viajava um casal desconhecido com ar discreto.

João Corda, depois de dar os bons dias, sentara-se ao lado de Abel e começara por fazer alguns rabiscos numa folha de sebenta, que logo guardara na pequena mochila verde militar, da qual retirara um pequeno livro e com notória inquietude abrira pelo separador e começara a ler.

 

As carruagens, eram fantásticas, pena é que não se encontre algum exemplar ou uma qualquer referência na museologia ferroviária nacional. Talvez até tenham sido vendidas ao quilo como madeira velha.

Recorrendo a uma simples descrição memorial, podem ser descritas como uma obra de arte arquitetónica industrial, de rara beleza, técnica e funcionalidade, da primeira metade do século XX.

Viajando no seu interior, podíamos percorrer um corredor longitudinal, lateral com cerca de 12 metros de extremo a extremo, com oito janelas para o exterior e uma porta em cada extremidade, dando acesso a um varandim no topo da respetiva carruagem..

Ao longo do qual corredor em frente das respetivas janelas, oito portas envidraçadas na parte superior, davam acesso a oito cómodos e bonitos compartimentos.

A beleza e comodidade de cada compartimento era verdadeiramente surpreendente:

A toda a largura, os passageiros podiam dispor de dois bancos, estruturados com ripas de faia polida, no assento e nas costas. Cada um dispunha de quatro lugares numerados. Porém muitos dias haviam em que se sentavam seis e mais passageiros no mesmo banco.

Os estilizados bancos estendiam-se até uma robusta porta de comunicação direta com o exterior.

Também cada uma destas portas era constituída por uma parte inferior em madeira exótica polida, sendo a parte superior formada por uma vidraça amovível, em corrediças de suporte, a com o auxílio de uma forte correia de cabedal virgem e brilhante. Uma proteção de luz, constituída por um grosso cortinado em fazenda cor de mel, convidava à intimidade no harmonioso compartimento.

Ainda na parte inferior um robusto e estilizado puxador do mais fino e reluzente bronze emprestava ao conjunto uma identidade mítica, sedutora e apaixonante, cruzando um misto de emoções, entre a nostalgia tranquilizante e intimista do romantismo e a inquietude e operacionalidade da vanguarda modernista.

 

Cada carruagem quando observada do exterior, era ainda mais arrebatadora, requintada, opulente, ostensiva e até bélica, mesmo para quem não tivesse memórias dos comboios, de origem Germânica a caminho de Auschwitz.

Em cada extremidade, o rebusto veículo dispunha, como já foi dito, de um elegante varandim, de comunicação com o corredor interior, com um robusto e estilizado resguardado em ferro fundido, acessível pelo exterior, por três grossos degraus em madeira exótica, igualmente resguardados por um elegante corrimão.

Enquadrada entre ambos os varandins, uma longa fachada abaulada no eixo horizontal, cor “verde oliva”.

Ao longo da qual fachada, alinhados e robustos oito patins, em grossa madeira, ressequida e impregnada com pó de carvão.

Cada um destes degraus, dava acesso imediato ao seu correspondente compartimento, através de cada uma, de oito robustas portas.

Cada porta dispunha de um longo e grosso puxador igualmente de bronze reluzente, a parte superior deixava ver através da vidraça a grossa cortina de fazenda cor de mel, como que a emoldurar os diversos rostos que ao longo do trajeto se iam assomando.

A robustez, a ostentação e a grandeza da invulgar unidade, em nada lhe subtraía o caráter de segurança, beleza e funcionalidade!

Aquelas carruagens alinhadas em composições de quatro cinco unidades, constituíam um elevado expoente simbólico da nova estética, da técnica, da força, da robustez e da grandeza das enormes proezas de construções móveis, da era industrial. Cuja maior afirmação logo a partir de meados do século XIX, os comboios puderam exibir na Europa mais desenvolvida e que em Portugal, em meados do século XX, ainda competiam, em pequenas viagens com as modernas carruagens de alumínio e bancos estufados, com aquecimento e compartimento bar.

Aqueles velhos monumentos, mais pareciam enxames, quando nos fins de semana e vésperas de festividades, repletas de militares, operários e outros passageiros, suspensos nos degraus, varandins e unidades de engate, empoleirados onde houvesse um qualquer apoio para os pés; vindos da cidade, faziam a viagem de retorno às suas aldeias.

Ou fazendo desdobramento nos dias de comboio internacional, pejadas de emigrantes e cabazes, a caminho das terras de França.

Ou convertidas em santuários de penitências e orações, quando nos dias 12 e 13 de cada mês, se amontoavam multidões de peregrinos a caminho de Fátima.

 

Tranquilamente João, continuava a leitura no “sete”, enquanto ecoava de novo o prolongado e estridente apito da “033” e uma imensa e compacta nuvem de vapor branco e quente, envolvia aquela fabulosa concentração de potência.

Nos primeiros duzentos metros, o silvar do imenso tornado, formado pela libertação dos vapores, saídos em alta pressão das duas caldeiras e o ruidoso vaivém, das enormes bielas daquele pequeno grande mostro, não permitiam a audição de qualquer palavra de volume inferior a 70 ou 80 Decibéis.

Finalmente tudo voltava à tranquilidade da rotineira viagem, de braço dado com o Tejo, entre suaves encostas e a pré planície, onde o majestoso rio, se esparrama e liberta de 900km, de opressão montanhosa, desde a cordilheira Cantábrica. Adquirindo a sua imagem mais serena entre salgueiros, choupos e milheirais, num silencioso e ondulante escorrer de águas cristalinas.

Qual mansidão, esconde o gigantismo e a brutalidade das próximas enchentes de Outono, quando salta das margens, provocando as mais violentas inundações, desalojando pessoas e animais. Transformando as belas planícies Ribatejanas, em infindáveis lagos de águas barrentas e traiçoeiras.

Agora tudo era só silêncio e a tranquilidade do acolhedor, belo e intimo compartimento.

Apenas era audível o compassado e embalador, toc; toc;…toc; toc; em cada junta de dilatação, dos curtos carris em aço; por brincadeira havia quem dissesse que eram rodas quadradas.

A viagem a partir de ali era curta, apenas trinta e poucos quilómetros, mas com uma velocidade baixa, parando em todas as estações, cedendo obrigatoriamente passagem a todos os outros comboios, parecia uma eternidade, especialmente quando não se aproveitava o tempo com qualquer ocupação.

João Corda, colocava o marcador de página, fechava o pequeno livro e preparava-se para o guardar na pequena barjuleta verde.

 

-A censura tacanha-

 

A seu lado, Abel procurava ostensivamente ler o título da obra, João, sem articular uma única palavra voltou a capa e exibiu-o, à socapa mas com determinação; era sobre a colonização espanhola das Américas, nos tempos de Pizarro, Cortez e outros.

João, fingira não dar importância à curiosidade do amigo, mas deixara ostensivamente a descoberto a capa do livro e fitando Abel, com alguma melancolia, dizia:

-Hoje vai estar neblina até ao almoço!

 

Enquanto nos compartimentos dianteiros se jogava cartas, cantava e brincava, no compartimento “sete”, todos dormiam profundamente, com exceção de João Corda e Abel.

Abel, como que aprovando a escolha literária de João, fazia um sinal com o polegar da mão direita ereto em posição vertical, indicando que sim e sussurrava:

-Deve ser interessante!

 

João, olhando para o lado, como que certificando-se que não havia por perto, gente desconhecida, ou colegas tidos como bufos, - o livro não era obra disponível na banca da “Livraria Bertrand”, existente na estação - fora adquirido no mercado clandestino, através de um amigo secreto de João, este ao ver o interesse de Abel e pela confiança nele depositada, de imediato o tranquilizou, dizendo com total franqueza:

-Segunda feira, já haverei terminado e se estiveres interessado, podeis dispor dele para leres.

 

O comboio circulava agora a dez quilómetros à hora sobre a velha ponte sobre o Tejo, em Praia do Ribatejo/Constância.

João, finalmente arrumara o livro na barjuleta de lona militar e recostara-se no banco de faia.

O dia começava a romper e já se vislumbrava, projetado na encosta da outra margem, o fabuloso perfil do pequeno, mas de uma extraordinária beleza e robustez medieval; o inexpugnável “Castelo de Almourol”, que fora baluarte de Templários, e quartel-general dos exércitos conquistadores, na formação do Reino de Portugal.

Situado numa minúscula ilha com o mesmo nome, no médio Tejo, não a mais de vinte metros da margem e cinquenta da linha férrea do nosso comboio operário.

 

-Então João não quereis ler mais?

Perguntava Abel, no seu habitual ar pachorrento, mas determinado e sedutor.

 

-Não! Não leio mais.

Respondera João, sem se alongar.

 

Continuava Abel, mostrando agora a sua outra face de rapaz inteligente e sagaz.

-Parece que andas cansado!

-Já não vais ver as miúdas, João!

-A “bolinha”, anda em cima de ti, que nem gato a bofe!

 

E expressando um sorriso maroto dizia:

-Se a Aldina não se põe à tabela!…

-No outro dia que vieste de moto, não te viu pela janela, veio para aqui a correr, procurando saber de ti.

-Mas ainda bem que veio, ao menos veio limpar-nos a vista!

 

-Até lhe passou o sono!

Gracejava Abel, mantendo o seu sorriso maroto e levantando o queixo, num gesto indicador para o Mainha; que entrara em Santa Margarida, como de costume e já dormia a sono solto; torcido de boca aberta debaixo da pala do boné de camurça e com a nuca assente nas ripas de faia polida.

 

João Corda, estava bem distante dali e procurando desvalorizar a conversa replicou:

-É bem gira!

-Bom e entre quatro carruagens cheias de homens e rapazes; qualquer uma outra; assim pintainha, cabelos compridos e brilhantes, roupinha alegre e com o joelhinho à vela, também o seria.

 

Chegando à estação de Vila Nova da Barquinha, lá entravam as meninas a ajeitarem-se como sardinha em lata, para gáudio dos ocupantes do “um” e inveja das muitas cabeças que se assomavam nas outras janelas.

As três moças entravam quase sempre no compartimento “um”, onde já viajavam doze e mais jovens e um ou outro menos jovem, que também procurava outras paisagens.

Já viajavam tantos de pé como sentados, apesar do protesto do revisor.

Terminavam ali os jogos de cartas e as “manhãs para trabalhadores”, - como os mais velhos chamavam aquelas cantarolas, anedotas e outras piadas – dali em diante, apenas e só graças, gracinhas e jogos de sedução. Restavam apenas seis quilómetros, com um apeadeiro de premeio e a viagem de sono e sonho, durava oito; nove minutos.

O comboio acabava de chegar e já se ouvia na aparelhagem sonora da estação:

 

-”Estação do Entroncamento”;

-”Atenção senhores passageiros, o comboio que acaba de dar entrada na linha cinco, precedente de Fraternal, destinado a operários, terminou a sua marcha, todos os senhores passageiros devem abandonar a composição, que vai ser retirada para parqueamento”.

 

Em poucos minutos centenas de operários, que nem símios em bananal, esfumavam-se em todas as direções, entre as dezenas de carruagens e vagões estacionados ou em marchas de serviço, em dezenas de linhas cruzadas, numa vasta área com mais de trezentos hectares, saltando por cima de engates, trespassando vagões e carruagens através de portas semicerradas, gatinhando sob as próprias unidades entre rodados, ou ousando numa arriscada boleia de uma composição em deslocação, para a qual e da qual saltavam em movimento.

Não se podia chegar atrasado e o posto de trabalho podia ficar afastado cem metros, ou mais de dois quilómetros. 

Continua em: www.facebook.com/fpjoshue

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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por setblog às 11:38

Segunda-feira, 05.09.16

PORTUGAL FORA DO €URO ATÉ 2024

FORA DO €URO EM 2024

 

 

 

Não , não estou a falar de futebol! Comentadores desses já há em excesso!        Estou sim a falar de economia, que por acaso nem sou formado em qualquer academia, mas tenho doutoramento na universidade da vida e isso permite-me no mínimo, sentir e comentar o que sinto; - Se falhar nas previsões, não me ficará tão mal, como a todos os titulares de grandes títulos académicos.        A minha previsão é que Portugal estará fora do €uro até 2024.        Justifico a minha afirmação por uma das três causas:

-Ou a moeda única, por egoísmo e arrogância política, desaparece.        -Ou Portugal, por sobrevivência, inteligência e livre vontade sai da zona €uro.        -Ou Portugal em processo de auto extinção, acaba por ser expulso.        - Ninguém acredita, exceto o Dr. Passos coelho, ou o futuro presidente do CDS/PP, Dr. Nuno Melo, e mais uma dúzia de empresários e duas dúzias de candidatos permanentes a fundos comunitários, que a Zona €uro se mantenha, só porque a Alemanha e mais três satélites querem, veja-se que a Inglaterra; nem sequer assentou na Comunidade Europeia, quanto mais na zona €uro. Com os Outonos do Médio Oriente, com os desmedidos crescimentos na Asia, á custa de desumanidades, com os consequentes abaixamentos de influência dos EUA, com o êxodo dos pobres de África a caminho da terra prometida e com a desordem na Europa, a situação económica mundial virá a agravar-se ferozmente e aí quem tem prensa é que espreme a massa; - Claro que os vivaços de Estrasburgo e Frankfurt, vão espremer até nada ficar. Donde restará o Nada!

-A Portugal, penso restar uma precária solução: - Reunir homens e mulheres de pensamento próprio e atitudes humanas e solidárias, sem subjacência a doutrinas preconcebidas, nem submissões a caciquismos e acautelando todos os oportunismos.          Formar poder bastante para governar o País com o que o país possa ter, mobilizando sem rodeios todos os meios humanos e materiais disponíveis, sem mendigar nem se submeter a poderes esternos. Pagar as dívidas, contraídas para formar grandes fortunas, durante 900 anos, quando for possível, sem tirar o sustento, a saúde e a habitação de todas as pessoas, ainda que seja necessário usar bens alheios obtidos de forma pouco ou nada lícita. Para tal é necessário renegociar todos os tratados, todos.

- Portugal poderá ser extinto, se Portugal continuar a ser governado segundo os interesses dos grandes grupos financeiros e de políticas manhosas sem Pátria e a perder os seus melhores ativos, cairá cada vez mais na falência como País, como cultura, como princípios e costumes e forçosamente na inviabilidade. Logo o passivo supera o ativo e não restará outra solução senão a liquidação e a respectiva insolvência. Ponto. Sendo entregue a massa falida aos credores e seus lacaios como fieis depositários até virem novos donos, marcarem novas fronteiras e erguerem altos muros bem ao seu estilo. Enquanto isto a comunidade Europeia não deixará de empobrecer o povo até que nos retire todos os direitos plasmados nos tratados vigentes, conduzindo o País á situação de membro não de direito.        Isto chamar-se- há expulsão. JP

        

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por setblog às 18:28

Quarta-feira, 31.08.16

2º ENGANO QUASE FATAL

2º ENGANO QUASE FATAL

. O acontecimento deu-se numa rua no Bº branco, em Setúbal. Um casal jovem passava tranquilo nas traseiras da “rua da cervedeira" nas proximidades da Escola Secundária da Bela Vista. Ele alto com uma barba rala muito preta, rabo- de- cavalo e calças em baixo exteriorizando uma cueca amarela, outrora interior, calçava chuteiras amarelas e ostentava um enorme cadeado cromado pendente de uma presilha e da algibeira das calças pretas de veludo elástico, de modo a mostrar umas longas e musculosas pernas, na T shirt, cor preta, ressaltava uma enorme cabeça de lince, cor bronse.

   Ela mais discreta, mas muito bela, elegante, cabelos cor de trigo, olhos castanhos grandes e redondos saia em godé de seda preta. O que bem conferia aquele par um moderníssimo quadro de estética, beleza e singularidade, contrastando com todos os hábitos de vestuário que proliferam nos alunos da escola. Porém, o que mais brilhava naquele: Talvez - Par de namorados, eram os dois meios seios dourados, que a garota exibia, forçando de quando em vez o abaixamento da sua T shirt, cor terra sena natural e para onde todos dirigiam os olhares.

   Eis que surge o inevitável:- Entre a multidão de alunos que de boca aberta iam contemplando o monumento. Sota-se um grito:- É ela eu vi! é ela que leva!

   Em breves instantes dezenas de jovens alunos se precipitam nas proximidades daquele casal intruso. Alguns mais atrevidos tentam mesmo o contato e gritam não é ela que queremos, queremos sim tirar uma "selfie" com ele, porém afastavam-se de imediato quando o jovem metia a mão no bolso e simulava tirar qualquer coisa.

   Gritava:- Não te aproximes! Vais arrepender-te.

   Novamente vinha uma nova vaga atacando de telemóvel em punho.

     Só uma, sei que está debaixo da "T shirt", é muito raro.

     É dourado!

     Se avanças mais um passo desfaço-te, gritava o jovem já enfurecido e por medo, acelerando o passo.

     Já vários adultos se juntavam e iam tomando partido na causa; -Uns defendiam o casalinho, outros iam apaziguando e aconselhando a moça para levantar a "T shirt", o logo seguiriam em paz.

    Perante tal altercação surge a "Escola Segura" e os ânimos parece ter acalmado, o rapaz apresenta as suas queixas da multidão, mas não consegue apontar nenhum jovem como agressor, começa a dispersão e tudo parece ter terminado.

   Porém uma jovem enlouquecida, salta sobre a jovem, rasga-lhe a "T shirt" numa loucura desmedida, batendo sucessivos disparos de telemóvel sobre os seios eretos e nus, de qual seio mais belo, ressaltava uma pequena imagem azul- cobalto em forma de escorpião.

   Numa enorme frustração gritava a malta:-

   Não é!

   Não é!

   É uma tatuagem; Estúpido!

   E lá iam dispersando perante o disfarce de adultos e sorrisos da polícia,

   Dizia o polícia mais velho e mais experiente estes garotos cada vez estão mais parvos,

   Agora ia aparecer no peito da miúda um pokémon.

   E ainda por mais dourado. - afirmava o mais novo querendo mostrar ser mais esclarecido no assunto.

 

 

 

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por setblog às 21:29

Sábado, 23.07.16

Outro louco (Braivik)

Á cerca de quatro anos, neste mesmo espaço escrevi:-" Seria mais punitivo tratar indivíduos como Braivik, apenas e só como loucos. Sim! Refletindo nos ataques que o mundo, tem vindo a sofrer nos ultimos anos, extraímos um fator comum a todos os atentados. A ÂNCIA DE PROTAGONISMO DOS SEUS EXECUTANTES. Vemos depois como os loucos atos, teêm o assentimento de outros loucos e assim se vâo multiplicando as escolas de loucos, que sendo tratados como religiosos, esquerdistas, direitistas, ou simlesmente como interpretes de pensamentos assassinos, vão engrossando as galerias de heróis e ídolos, para os seguidores loucos. -Pois bem, estaremos nós a incentivar a formação de exécitos de loucos? Estaremos a colaborar na entronização e elevação de loucos á categoria de heróis. Se os loucos forem tratados como loucos, terão seguidores? Haverá alguém que siga um louco? São direitos do homem a informação e a liberdade de expressão e também a liberdade de viver em paz e educar os seus filhos na amizade, na verdade, na justiça e sobretudo no amor. É urgente colocar os loucos em ospícios, afastados da sociedade. É urgente assegurar que as mensagens de loucura não poluam as nossa casas e as nossas escolas, é urgente assegurar que as mensagens loucas não passem com a mesma prioridade e disimuladas entre a sagrada liberdade de expressão. 

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por setblog às 11:07

Domingo, 08.05.16

Carruagens desaparecidas

carruagem_verde3.jpg

 

Extrato II (D O H C D)

As carruagens, eram fantásticas, pena é que não se encontre algum exemplar ou uma qualquer referência na museologia ferroviária nacional. Talvez até tenham sido vendidas ao quilo como madeira velha. Recorrendo a uma simples descrição memorial, posso descrevê-las como uma obra de arte arquitectónica industrial, de rara beleza, técnica e funcionalidade, do primeiro quartel do século XX. Viajando no seu interior, podíamos percorrer um corredor longitudinal lateral com cerca de 16 metros de extremo a extremo. Com dez janelas para o exterior e uma porta em cada extremidade. Ao longo do qual corredor, dez portas envidraçadas na parte superior, davam acesso a dez cómodos e bonitos compartimentos. A beleza e comodidade de cada compartimento era verdadeiramente surpreendente. A todo o comprimento, os passageiros podiam dispor dois bancos, em ripas de faia polida, no assento e nas costas, com quatro lugares cada, mas onde por vezes se sentavam seis e mais passageiros, cujos bancos se estendiam até uma fabulosa porta. Também cada uma destas portas era constituída por uma parte inferior em madeira exótica polida e uma parte superior encaixilhada e com uma vidraça elevatória por meio de uma forte correia de cabedal virgem e brilhante. Ainda na parte inferior um robusto e estilizado puxador do mais fino e reluzente bronze emprestava ao conjunto uma identidade mítica, sedutora e apaixonante, cruzando um misto de emoções, entre a nostalgia tranquilizante e intimista do romantismo e a inquietude e operacionalidade da vanguarda modernista. Porém quando observada do exterior, era ainda mais arrebatadora, requintada, opulente, ostensiva e até bélica, mesmo para quem desconhecia a sua origem germânica resultante dos despojos da 2ª guerra mundial. Em cada extremidade, um elegante varandim resguardado com uma robusta e estilizada guarda em ferro fundido, acessível por três grossos degraus em madeira exótica. Enquadrada entre os dois varandins, uma longa fachada abaulada no eixo longitudinal, cor verde-oliva, ao longo da qual, alinhados e robustos dez patins, em grossa madeira, ressequida e impregnada de pó de carvão, cada um destes degraus dando acesso imediato ao seu correspondente compartimento, através de cada uma das doze fabulosas portas, cujas partes superiores envidraçadas, umas abertas outras fechadas, formavam um extraordinário conjunto de dez lindíssimas janelas altas e estreitas. Logo abaixo das janelas e perfeitamente alinhados, dez longos e grossos puxadores de bronze reluzente. Por detrás das vidraças podia avistar-se uma grossa cortina vermelha, o que conferia finalmente aquele monumento rolante uma sensação de absoluta ostentação e intimidade. Aquela carruagem era um expoente simbólico da nova beleza, da técnica, da força, da robustez e da grandeza das enormes proezas de construções móveis, da era industrial. Cuja maior afirmação logo a partir de meados do séc. XIX, os comboios puderam exibir na Europa mais desenvolvida. Quando nos fins-de-semana e vésperas de festividades, repletas de operários e outros passageiros, suspensos nos degraus e varandins, empoleirados onde houvesse um qualquer apoio para os pés, vindos da cidade faziam a viagem de retorno às suas aldeias. Aqueles monumentos tão belos como bélicos apesar da sua graciosidade também não conseguiam disfarçar a hostilidade e o temor, ao ver aqueles exames humanos, vinha-nos á memória as semelhanças com outros degraus, e quem sabe se aqueles mesmos, outras janelas, varandins e unidades de engate, pejadas de soldados do “15 de Tomar” em direção á Flandres, ou de judeus a caminho de Auschwitz e que muitos, feitos donos da história parece quererem ofuscar. Ecoava o prolongado e estridente apito da “033”. Uma imensa e compacta nuvem de vapor branco e quente, envolvia aquela fabulosa concentração de potência, Nos primeiros duzentos metros, o silvar do imenso tornado, formado pela libertação dos vapores, saídas com alta pressão das duas caldeiras e o ruidoso vaivém das imensas bielas daquele pequeno grande mostro, não permitiam a audição de qualquer fala de volume inferior a 60 ou 70 Db. Finalmente tudo voltava á tranquilidade da rotineira viagem, entre as encostas cavadas do Tejo e o silêncio ondulante das águas cristalinas e gélidas do imenso e sussurrante caudal que vindo das serranias Espanholas, depois de percorrer 800 quilómetros em ziguezagues e precipícios, escorria agora com tranquilidade e firmeza ao longo dos setenta quilómetros, que nessa viagem constituíam o percurso comum. Depois tudo regressava ao acolhedor ambiente daquele belo e intimo compartimento. …..

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por setblog às 13:34

Quarta-feira, 09.10.13

canção de sonho

CANÇÃO DE SONHO


Sonhei meu amor, que eramos pequeninos!
E uma rosa branca, com laivos de carmim,
No meu livro da escola só com lápis de cor
E dois corações, desenhaste para mim
e como num sonho, prometemos amor.


No meu longo sonho, na praia, juntinhos
Ofereci-te uma concha, numa duna esquecida
e sentados no chão vendo o sol se pôr
esquecemos o tempo, libertamos a vida
ganhamos o dia ganhamos a noite e fizemos amor.

Sonhei com as promessas que fizemos tão loucas.
Foi ali que semeamos nossas ilusões,
construímos a sós um castelo de areia,
desenhamos no chão nossos corações
e fizemos amor Sob a maré cheia,

Sonhando unimos os corpos e as bocas.
Tantas loucuras até o sol nascer,
acordados, sonhamos e voltamos a sonhar,
que é tão bela a vida, que é tão bom viver
ao raiar de aurora voltamos a amar.

E no sonho lindo fizemos juntinhos, longa caminhada.
E caminhando pelo amor unidos
e para caminhar, longos caminhos trilhamos,
com amor nunca fomos vencidos,
de novo ao sol pôr, no amor repousamos!


No sonho nos falta, pouco ou quase nada!
Tudo esquecemos, pelo menos por agora,
juntinhos no leito, vamos recordar,
tudo o que passamos pela estrada fora.
Para lembrar a vida, só nos resta amar



Sonhamos com o mundo e com os próprios enganos!
Entra pela janela a luz de lua cheia,
e unidos num sonho, caminhamos junto ao mar.
deitados na cama, sonhando com a areia.
dormimos e sonhando voltamos á amar!


Sonhei que essa noite durava mil anos!
Cansados de sonhar, sonhando nos amamos
e já bem velhinhos, mas com muito amor
e quando do sonho enfim acordamos,
de novo nos amamos e com maior fervor!


Joshué

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por setblog às 10:20

Sábado, 24.08.13

FIM DO MUNDO 47

FIM DO MUNDO 47

Os dias de Outubro costumam já ser um pouco frescos e ventosos.
As densas florestas estendidas num infinito carrossel de pequenas e regulares montanhas envolvem a pequena e branca aldeia num maternal e doce manto de mil verdes.
Não fora a tradicional novena na centenária capelinha, os fins de tarde tornar-se-iam monótonos e até enfadonhos.
Haviam de terminar sempre iguais!
Para as mulheres:
Regressando dos trabalhos do campo!
Carregando à cabeça enormes cestos raiados, a transbordar de comida para o gado e hortaliças para o jantar.
Enfiada no braço curvado, uma artística cesta de vime expõe com orgulho, os mais doces figos serôdios e o rebotalho de saborosos pimentos, tomates e pepinos.
Sobre o ombro dorido pela picota, carregam as ferramentas com que dia após dia, vão rasgando os solos e as próprias mãos.
Para os homens:
Quando o Caldeira fechara a taberna, que já o jantar estaria pronto e a mulher também!
As crianças juntam-se!
As meninas:
Cantam e dançam à roda, no largo da fonte.
Os rapazes mais velhos:
Vão dando uns pontapés numa bola de trapos ou numa bexiga de porco!
Um por outro ensaia os primeiros golpes de gilete na face e dissimulados pela palha amontoada na eira do santo, trocam conversas, experiências e reciprocamente observam as transformações fisionómicas decorrentes da mudança de idade.
Os mais pequenos:
Jogam à carica e ao botão!
Este, um jogo muito engraçado!
No chão equilibra-se um tubinho feito de cana, sobre o qual cada jogador sobrepõe um botão, de modo que fiquem todos acomodados e em perfeito equilíbrio.
De um seixo ou de um caco velho, antecipada e meticulosamente, prepara-se um pequeno círculo com quatro ou cinco cm de diâmetro, a”malha”, esta é arremessada uma só vez por cada jogador, a uma distância de quatro passos do tubinho, a que se chama “belho” tendo por objetivo, projetá-lo no chão.
Procurando colocar a “malha”, mais próxima dos botões, agora estatelados, que o próprio “belho”.
Retirando de seguida todos os que ficarem nesta condição.
Prosseguindo cada jogador, um após outro, até que todos os botões sejam retirados.
As bulhas não eram raras!
Todos colocavam um botão e havia uns galifões que retiravam todos de uma só jogada.
Se dúvidas havia quanto a medições, lá vinham as “meças!”
Pegava-se um pauzito do chão que esticava e encolhia conforme os medidores eram prejudicados, ou beneficiados.
Habitualmente, os juízes eram os tais galifões!
Claro!
Mas, mau! Mau!
Era quando um jogador ficava sem botões.
Não se podia desistir sem custos!
Chegava por vezes á ameaça de irradiação!
Ninguém podia ser irradiado, do jogo mais importante da aldeia.
Lembro-me de um dia o Carramim ter levado uma enorme tareia de cinto, por ter arrancado todos os botões das fronhas do enxoval da irmã.
Perdeu-os todos para o Gino que tinha olhos e unhas de milhafre.
Não entrava no jogo qualquer um; Havia uma espécie de quota mínima, os principiantes tinham que demonstrar existência, os grandes botões valiam mais.
Vi uma vez um botão de capote militar ser avaliado em oito pequenos.
Um dia para entrar no jogo o Manuel Techugo tirou dois botões da bata, que valiam três cada, esteve toda a manhã na janela da escola com umas orelhas de burro.
Era o castigo máximo dado pela justiça escolar, era pior que trinta reguadas!

O Zé Rosa e o Artur preferiam jogar à carica, por cima do muro da areeira, era um jogo mais calmo e mais nobre.
Partindo do início do muro, era objetivo chegar á meta, com um só toque em cada jogada, se um jogador deixava saltar a carica para fora do muro, regressava ao início, quem primeiro transpunha a meta ganhava, ganhava e nada mais.
Começava novo jogo, era assim horas e horas a fio.
Mas já no velho sino ecoam as primeiras badaladas!
É preciso ir pôr água no cabelo passar o pente e correr para a reza.
Não são permitidos atrasos!
Só o Ti Diamantino permanece agora sentado no muro!
Cegara aos vinte anos e apesar de ser completamente autónomo, aguarda sempre por companhia para ir até ao adro.
Toda a gente lhe presta elevada consideração e estima.
Homem culto, lúcido, conhecedor de todos e dos seus problemas, saudável e muito forte. Grande amigo e sobretudo um confidente.
Marca presença e notoriedade, desde manhã cedo até altas horas da noite, batendo com o bordão de salgueiro nas pedras da calçada, numa ou outra esquina, ou nos muros velhos de pedras toscas, forradas com musgos secos que hão-de renascer às primeiras águas.
Não passa pela porta da Ti Clemência sem dar um sinal de si!
Encosta o ouvido no postigo da Ti Florinda Lobata, certificando-se de que ainda se ouvem os gemidos, de vinte e cinco anos acamada.
Vai sempre à outra rua certificar-se de que a Mariazita lá está fazendo tiras e a Ti Brites, mesmo no pino do verão sempre á lareira a resmungar com o rabino.
Mas se em alguma casa não nota o habitual sinal de vida lá vai a correr chamar o Chico Fernandes, sempre bêbedo, mas sempre pronto a acorrer e constatar que tudo esta bem.
E lá prossegue de novo o Ti Diamantino, até ao muro do Caldeira.
Por vezes aproxima-se dele um jovem em silêncio, procurando testar as suas apregoadas capacidades de reconhecimento por apalpação.
Dizia-se á boca pequena que as moças aproveitavam!
Bom!
O homem era só cego!
Num ápice a noite caiu.
Há muito tempo já passara a Ti Silvina!
Era ela que passava o terço, cuidava da igreja, tinha de tratar do azeite para as lamparinas, passar um pano nos Santos e tratar dos paramentos.
Uma vez inesperadamente apareceu o pároco e teve de esperar que a Ti Benvinda fosse a correr engomar as vestes.
Não podia mais repetir-se essa falta de zelo!
Tinha também de acender as velas nos altares de São Simão e São Lucas, dizia-se que era ele que fazia a azeitona fundir.
A mais difícil era a lamparina suspensa no pórtico da capela-mor.
Era necessário baixar a corda prende-la no cutelo de São Simão, com muita paciência acender e subir de novo a lamparina.
Com o movimento e as correntes de ar apagava-se, certos dias havia de repetir a operação várias vezes.
Uma tarde, após ter conseguido seus intentos á primeira tentativa, abrindo um leve sorriso, com uns olhitos tão pequenos e negros como azevinhos, brilhando mais que as próprias velas naquela penumbra quase sepulcral, onde a sua pequena silhueta de criança mal se conseguia enxergar, virando-se para Nossa Senhora, ouvi-a murmurar:
-Mãe santíssima!
- Faço tudo isto com boa vontade!
-As vezes com muito sacrifício!
-Tu sabe-lo bem!
-Todas as moças da minha idade gozam a vida!
- Foram a bailes!
- Têm filhos!
- Têm homem todos dias!
- E tu bem sabes que algumas até têm mais que um!
- Eu nunca te deixei!
-Com toda a dedicação e devoção, estou sempre junto a ti!
-Ó!...
-Perdoa-me este desabafo, Mãe Santíssima!
-E ao menos levai-me para o Céu, quando eu for velhinha.
-Levai-me ao menos para o céu.
Já toca agora a segunda série de badaladas, pouco depois começa o terço!
Ninguém pode chegar atrasado.



Duas frestas rasgadas nas grossas paredes de enormes blocos de granito, deixam passar a escassa luz do entardecer, reflectindo-a nos ganchos em ouro e prata que prendem e adornam os cabelos pretos e molhados das raparigas por debaixo dos véus de seda transparente.
As mulheres, essas, mantêm os cabelos e grande parte do rosto cobertos com espessos lenços pretos.
As mais idosas chegam primeiro.
-Venham para dentro!
Reclamava a Ti Silvina, para algumas moças que gostavam de fazer finca-pé no adro, na esperança de ouvir algum galanteio mais ou menos lisonjeiro.
Depois entram os homens.
Os rapazes vão ainda ficando na rua até a última badalada.
Os garotos vão na frente das mulheres.
-Vai para dentro que já está a tocar a ultima vez!
Era a voz da ti Isaltina sempre a correr sempre atrasada e surda que nem uma galga de lagar!
Já a ceia ficara a ferver encima da trempe!
É preciso fazer tudo.
Quando a novena terminar têm de ter a comida pronta e pô-la na mesa.
O Caldeira vai já fechar e os homens chegam para comer.
-Venham para dentro, o terço já começou, reclamava a rosa.

Três badaladas…
-Em nome do Pai do Filho e do…
-Silêncio!
-Vamos rezar o terço em honra de Nossa Senhora...
Um estranho sussurrar crescia debaixo
do alpendre.
-Façam pouco barulho!
-Vamos rezar o terço em…
O burburinho estendia-se agora para dento da capela.
-Assim não é possível!
-Ai valha-me Deus!...
-Em nome do Pai do Filho e do Espí…
A Telvinita com toda a sua ingenuidade e singeleza olhou para traz e num tom aflitivo gritou:
-Um incêndio! Ti Silvina…
-Grande incêndio!
Fez-se um instante de silêncio e todos olharam para trás.
-Grande fogo!
Era a voz autoritária da Dona Aurora, fora regente de ensino, gozava de uma pensão do estado, como tal, de invulgar e respeitável credibilidade.
A Ti Silvina apertando o Crucifixo com mais força, entre as pequenas e alvas mãozitas, sobre abrindo os negros olhos, com o rosto agora transformado numa irreconhecível expressão de temor, soltou um prolongado gemido, voltando-se para Nossa Senhora:
-Ai Mãe Santíssima!
-Onde é o fogo? Onde é, o fogo?
Em uníssono, respondia a assembleia:
-Ali por cima do vale de beirins!
-Está tudo a arder!
-Credo! Santo nome de Jesus!
-Pai - Nosso que estais nos Céus...
-Vão buscar baldes!
Gritava o Ti João Léguas, era tão medricas, que enquanto gritava, corria no sentido contrário lá para as bandas da ribeira.
O açude dos Catrões, apesar da prolongada seca, ainda tinha muita água e seria por certo um lugar bem mais seguro.
Era a muralha mais imponente e vertiginosa e o maior fundão de toda a ribeira, que sob as mais belas e frondosas margens de salgueiros, amieiros, ulmeiros, choupos e silvados, serpenteava nos vales de batatas e milheirais, Que davam cor, alimento e felicidade a toda a aldeia que, de mais nada dispunha a não ser da sua capelinha.
A minha avó sempre muito atenta, costumava dizer-me:
-Não podes ir nadar para o açude, olha que tem lá cobras de água!
Mas aquele lugar era ímpar e irresistível.
Mergulhávamos bem do alto das enormes pedras ali estrategicamente colocadas por dezenas de homens e que constituem barragem de águas cristalinas, as quais se lançam abruptamente em catarata longa, espessa e branca, formando um véu de noiva que se completa com o frondoso e não menos alvo sabugueiro bem abraçado ao cume da muralha para onde os moços subiam e se ocultavam das mulheres que vinham lavar as roupas, mostrando uns aos outros os corpos ainda nus e a escorrer, antes de voltarem a vestir as roupas.
Surgindo de novo com uma canita, um fio e um anzol. Disfarçando com uma muito provável pescaria de bordalitos, enguias, ou até capturando um cágado, brincando com ele nas margens transparentes do pego.
A Ti Silvina fazia a terceira tentativa!
-Ai Nossa Senhora nos acuda!
-É um vulcão!
Grita o João Neto:
Trabalhava em Lisboa, saberia muito bem como é um vulcão!
Todos correram para junto dele debaixo do alpendre, já ninguém ficara dentro da capela.
-E chega aqui?
-Não!
-Não é um vulcão!
Era a primeira vez que se ouvia a voz do Caldeira junto da igreja, nunca deixara a taberna.
-Ó Corda foste tropa nos Açores, não há lá um vulcão?
-Não!... Não pode ser um vulcão!
-Isto é muito mais que um vulcão!
-Ai Credo em Cruz!
-Nossa Senhora nos acuda! Santo nome de Deus!
-Rezai todos o terço, eu vou ao Sardoal perguntar à Guarda, eles saberão com certeza.
-Eu vou contigo Corda.
-Não, eu vou de bicicleta!
-Ai Jesus!
-Vai depressa Manel!
-Agora vamos todos rezar o terço



Já poucos iam para dentro, ouviam-se alguns soluços e a Ti Mariana corria pela rua abaixo com a neta ao colo, gritando:
-Acudam! Acudam!
Outros mais corajosos subiam ao alto do serro, tentando ver melhor e já se ouviam no cimo do monte os gritos de aflição:
-Acudam!
-Isto vem do Céu!
-É esta a profecia!
Começam abraços, choros, suspiros, as crianças gritam e correm para os colos dos Pais.
Debaixo do alpendre forma-se um cacho humano de corpos abraçados. Olhos rasos de lágrimas e bocas que já não articulam palavras, apenas e só gemidos e gritos.
Apenas o Ti Acácio; figura acolita da igreja, que além de pai de um seminarista, sacristão, Cabo chefe e regedor, era também o moleiro da aldeia e sobre tudo endireitava a espinhela e benzia do “mau - olhado”. Uma palavra sua era como uma lei divina.
Suplicava:
-Silêncio!
-Rezamos o terço!
-Pai Nosso que estais nos céus...
Ele próprio trémulo, voz rouca submissa e temerosa, exclamou:
-Queridos irmãos! Dizem as escrituras que desta vez o mundo acaba com fogo!
Gritos de todas as bocas, desmaios, rostos horrorizados colam-se de olhos cerrados, amontoam-se os corpos, como que todos queiram ir abraçados para o céu.
As longas, cruzadas, e sobrepostas línguas de fogo de tons nunca vistos nem descritos, estão agora já sobre as cabeças.
Havendo já quem sinta o calor do fogo e provavelmente no fundo daquela amálgama humana quem tenha perecido e descanse agora em paz.
Era mesmo o fim do mundo!
-Salvemos as nossas almas!
-Perdoamos uns aos outros!
-Todos os que perdoarem serão perdoados.
-Não há sacerdote, mas podemos confessar-nos a Deus!
O primeiro foi o Jerónimo:
-Perdoa-me João fui eu que te denunciei!
Coitado do João Palheto tivera seis anos preso em Peniche, sem saber porquê.
Onde lhe arrancaram as unhas da mão direita, ficando aleijado para sempre.
Dizia-se que pregara um papel no freixo do adro a pedir água para a aldeia.
Outro grito, entre tantos que se confundiam.
-Perdoa-me fui eu que deitei fogo a tua cevada!
-A ti Ventura!
-Que estais nos céus! Perdoa-me, roubei-te os cortiços no “Monte de Além”.
-Nossa Senhora de Fátima!
-Levai-me para o Céu que eu dou-te tudo o que tenho!

A Ti Adelina, desfeita em lágrimas, soluçando e escondendo o rosto, murmurava com voz trémula, pedindo desculpa ao seu falecido:
-Peço-te perdão Calisto, tanto que tu trabalhavas tão longe, de nada sabias e eu enganava-te com o pastor de Bioucas.
Todos fechavam os olhos, ninguém queria presenciar o tenebroso holocausto final!
As aterradoras línguas de fogo já envolviam as árvores os prados e as montanhas, o escarlate reflectido nos rostos já os mostrava a arder.
Homens mulheres e crianças na aldeia eram ao todo 193 pessoas. 192 criaturas de Deus estariam naquele cacho humano de onde já mal se ouviam alguns gemidos e poucos ais.
A agonia era total!
Até o Ti Luís veio juntar-se ao horror do juízo final!
Nunca antes se vira na aldeia!
Só os mais velhos o conheciam!
Vivia há trinta e tal anos no serro, entre estevas e margaças, num palheiro sem porta nem janela, envolto em silvas e uma ameixeira pardinha, de onde só saía de noite para “pregar”!
Muitos chamavam-lhe o poeta!
Era frequente fazer as suas pregações em verso!
Por vezes iam os jovens à noite com o Ti Diamantino para à tapada, ouvir os seus sermões.
Ao domingo à noite enquanto as raparigas cantavam e dançavam no largo da fonte, costumava declamar esta espécie de lengalenga:

-Os meus versos não são meus,
-Nem é minha a sua razão.
-Os versos são de quem os canta,
-Sentindo-os no coração!

Dizia-se que ficava a chorar, horas e horas seguidas.
Depois voltava com nova lengalenga!

-Cantai e vivei agora,
-Gozai bem o presente.
-É que um futuro de tristeza,
-Espera por toda a gente!


-Para onde foram meus dias?
-Aqueles que eu não vivi!
-Aqueles que estais vivendo,
-Não foi por certo eu que os perdi!



-Quando um dia perdi a pele!
-Tornei-me pessoa medonha.
-Mas há muitos de pele nova
-e detendo pior peçonha!


-Ao deitares fora o pano!
-Cuidado não fiques nu.
-Se hoje eu vivo tão gelado,
-Amanhã podes gelar tu.

-Se o destino me marcou,
-no ventre de minha mãe.
-Fez de mim aquilo que eu sou,
-o que fará de voz também?

-Jamais vos abandonei,
-meu coração vive a sangrar.
-Por amor eu vos deixei,
-para o mal vos não pegar!

Assustei-me ao vê-lo!
-Assustei-me, não pelo horror que a sua imagem me causou!
Quase sem nariz nem lábios, a roupa; talvez retirada de um espantalho, coberta de barro, agora ainda mais vermelho; pelos reflexos das tremendas labaredas de fogo, um barrete negro e espesso como o barro ressequido, escondia-lhe o crânio e as orelhas, não deixando a descoberto mais que dois pequenos orifícios onde outrora por certo brilharam dois olhos.
-Assustei-me sim! Com medo de não morrer e compreendia agora aquela estranha lenga-lenga que lhe costumava ouvir à noite.
-Todos quando o ouviam faziam chacota:
-Olha lá esta o poeta a pregar!
-Amanhã vai chover!
-Só as crianças e o Ti Diamantino escutavam e queriam entender o que ele dizia:

-Cai a moça, porque é bela!
-Cai o pescador ao mar,
-Cai o homem encima dela!
-Cai o véu com acaba de casar!
-Cai um pássaro do ninho,
-Cai a beira do beiral!
-Cai do berço o menino,
-Cai-lhe o cordão umbilical!
-Cai que nem peixe em anzol,
-Cai a noite pela janela,
-Cai como em mel a sopa mol!
-Cai o pau nas costas dela
-Cai cansada no colchão!
-Cai no sono e ouve chorar,
-Cai num sonho de ilusão,
-Cai em si e dá-lhe de mamar!
-Cai no sono exausta e nua!
-Cai de tanto trabalhar,
-Cai de novo e vai para a rua,
-Cai o dia e volta a lutar.
-Cai na soleira cansada!
-Cai de joelhos para santa!
-Cai e enferma deitada!
-Cai mil vezes se levanta!
-Cai cansada de cair!
-Cai-lhe o próprio coração!
-Cai, vai, vem, e torna a ir!
-Cai finalmente no chão!

Junto da capelinha, só o Ti Zé Emídio, “O Louco”, permanecia sentado no mesmo poial de sempre!
-Anda para aqui Emídio!
-Que Deus lhe dê perdão!
-Não sabe o que faz!
-Coitadinho!
Quase ninguém lhe ouvia a fala, passava as madrugadas a armar aos pássaros e aos láparos, as tardes eram dormidas debaixo da frondosa amoreira da Ti Brites. Ao fim da tarde, depois de assistir ao terço, sentado da parte de fora da capela, recolhia ao palheiro do “tio Esteves” onde vivia com um enorme gato, tigrado, um molhe de ratoeiras e um saco.
-Vem para junto de nós Zé Emídio!
-Vamos todos morrer!
-Deus também te perdoa e também te levará para o Céu!
-Tenho vergonha…
-Não tenhas receio, confessa tudo!
-Não é isso! Eu só queria pedir uma coisa, Ti Manel Silva!
-Pede filho!
-Pede!
-Pede tudo!

Era este o homem mais rico da aldeia dono da maior quinta onde abundavam os mais variados e melhores frutos, legumes e animais, onde ninguém ousava cruzar uma vereda ou contemplar um qualquer fruto.
Um dia deu uma tareia com um pau de marmeleiro no Zé Biscas porque este se atrevera a ir beber água na bica do tanque.
A fama da sua adega e carnes curadas era pregoada por toda a região e não era raro, patrulhas da Guarda Republicana da Vila e de outros Concelhos, passarem a caminho da quinta.


-Sei que vamos todos morrer!
Balbuciava o Ti Zé Emídio!
-Se o Ti Manel Silva…
-Diz rapaz
-Estou com vergonha!
-Diz!
Diz tudo, que eu perdoo-te tudo.
-Eu… Eu… Queria pedir uma coisa.
-Pede tudo, que seja pelos nossos pecados!
-Se o Ti Manel Silva…
-Eu nunca provei do seu presunto, nunca bebi do seu vinho nunca|…
-Ah! Se me emprestar as chaves da sua adega! Irá direitinho para o Céu e eu amanhã devolver-lhas-ei.
-E que seja pelas suas intenções
-Toma!

Era mesmo o fim do mundo!
-Vai come e bebe tudo o que tiveres na vontade.
-Coitadinho, Deus lhe dê perdão, não sabe o que faz!
-Que ao menos morra em paz!


O dia seguinte nasceu radioso, toda a gente seguia muito cabisbaixa para os campos.
O Ti Zé Emídio, “O Louco ”, lá foi cumprir a promessa, entregando as chaves ao Ti Manel Silva.
E certamente ansiando outra Aurora Boreal. Joshué

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por setblog às 21:01

Domingo, 28.07.13

VELHO SEM FÉ

VELHO SEM FÉ


A história aqui apresentada embora baseada numa narração de um facto ocorrido nos meados do século XX, numa aldeia do litoral da Estremadura norte, em Portugal, é uma peça de ficção, pelo que qualquer semelhança de nomes, lugares, ou instituições é pura coincidência.

O Autor























O VELHO SEM FÉ





-Não sei como te chamas!
-Não sei onde moras!
-Não sei se tens amigos!
-Não sei se tens nome!
-Não sei se tens casa!
-Não sei se tens quem goste de ti!
-Não sei

-Se ao menos tens com que almoçar!
-Se tens alguém para falar!
-Se tens alguém a quem amar!
-Se tens um colo para chorar!

-De ti apenas sei:

-Que fazes o caminho caminhando!
-Que gastas a rocha por nela te sentar
-Que gastas o teu olhar olhando!
-Que gastas o bordão por nele te apoiar!

-Que pareces ver no mar
-Donde vem a escuridão!
-Como quem só quer amar,
-Sem encontrar coração!

-Dizei-me pois o que procuras
-e se queres ser meu amigo.
-Não vivas mais as escuras,
-farei o caminho contigo!


Parte dois

-Há tantos anos que busco a luz do meu destino e agora uma criança como tu abre o caminho da minha razão!
-Quem és tu menino?
-Xavier é o meu nome!
-Todos me chamam Xavi.
-Moro para lá daquele cerro e venho apanhar conchas para fazer um colar para a minha irmã que faz anos.
-E tu como te chamas?
-Sou o “moleiro da Aldeinha”
-Talvez tenha outro nome mas não me lembro!
-O ciclone de 41 levou-me o moinho!
-Também o malhadinho voou naquele fatídico dia.
-Coitado do malhadinho, nunca soubera o fim dele!
-Só comia pão, ele e eu, por vezes comia uns ossitos secos, que encontrava no chão das festas da “senhora da luz”.
-Era um verdadeiro amigo, em cada aldeia que parávamos a entregar a farinha dormia uma valente soneca, mesmo assim á noite sempre tinha sono para dormir em cima das minhas pernas, servia-lhe de ceia,
-Eram todos os meus pertences!
-O meu moinho, o meu malhadinho e o pobre do “mingas” que resignadamente, anos e anos transportava a farinha, o milho, o “moleiro da Aldeinha” e o vinho que ele bebia.
-Tudo em troca de comer o que pudesse chegar pelos caminhos onde passava.
-Morreu de tristeza por não ter mais caminhos, nem milho, nem farinha, nem malhadinho, nem dono como um alforge dobrado no seu dorso...
-Vai; Vai apanhar conchas Xavi!
-O meu caminho não dá para dois…
-Tu és um bom menino!
-Não podeis pisar este caminho tão agreste, sinuoso, tenebroso e sobretudo tão desconhecido e irracional…
No dia seguinte logo pela manhãzinha
-Estás aí de novo Xavi!
-Sim!
-Trouxe-te um bordão novo, o teu já está muito gasto!
-Hoje também te quero oferecer o sol!
-Pode ficar para os dois; Desse lado é todo para ti eu fico com o lado do mar, é mais fresco!
-Não quero que me contes mais histórias de tristezas, como a do malhadinho ou do mingas.
-Hoje sou eu que te conto uma história!
-O Tó oferece-me dois tentilhões pequenos tão pequeninos que tinham os olhitos ainda fechados e só tinham penugem.

-Com a ajuda do meu avô, dei-lhes comida e água, ficaram grandes! Muito bonitos e todos vestidinhos, com as penas mais macias que eu já senti, coloridas e de contrastes fortes em tons de cinza, preto, azul-cobalto e branco, com recortes tão perfeitos que eu nunca consegui copiar apesar de ter uma boa caixa de aguarelas e todos dizerem que tenho muito jeito para desenhar e pintar.
-Já piavam e saltavam, mas a gaiola parecia-me pequena, o meu avô construi uma gaiola muito maior e mais bonita, continuava a parecer-me pequena!
-Numa manhã de sol como hoje, com a ajuda do meu avô levei-os até ao trigal e abri a gaiola!
-Jamais pensei como duas aves tão pequeninas pudessem mostrar tanta gratidão e felicidade, voavam em círculo sobre mim chilreando, parecendo beijar-se e querendo beijar o meu cabelo.
-Foi o dia mais feliz da minha vida!
-Vêm agora todas as manhãs na laranjeira do meu quintal dedicar-me a mais linda sonata de gratidão e amor!
-O teu avô só pode ser um homem tão bom, quanto tu és um bom menino.
-Agora vai Xavi!
-O teu avô deve estar a tua espera.
-O meu avô está sempre à espera!
-Ninguém sabe porque espera o meu avô!
-O meu avô tal como tu fica horas sentado a olhar o mar, o céu, as estrelas, a lua e as suas próprias mãos!
-O meu avô contempla as borboletas, as formigas, todos os bichos e plantas sem dizer uma palavra.
-Só quando está a sós comigo pronuncia sempre a mesma frase:
-Filho se um dia encontrares a fé segura-a com todas as forças do teu ser!
-Ouve bem o que te digo:
-Se um dia encontrares a fé, segura-a com todas as forças do teu ser…
De novo o “moleiro da Aldeinha”, vendo que Xavi ficara emudecido, de olhos semicerrados parecendo procurar no seu próprio interior algo sem saber o quê.
Quebrou o silêncio e disse:
-Obrigado pelo meu novo bordão!
-Obrigado pelo sol que comigo repartiste!
-Obrigado também pela liberdade que devolveste aos tentilhões!
-Obrigado ainda por me apresentares o teu avô…
Xavi permanecia atónito e fitando aquele homem tão estranho e tão parecido com o seu avô.
Agora ambas as mãos emolduravam-lhe o rosto seco e enrugado, donde pareciam querer saltar dois grandes olhos negros, um enorme nariz, uma densa e longa barba branca escondia-lhe a boca tornando-a numa ténue e enigmática linha.
Xavi preparava-se para partir, quando o moleiro lhe perguntou
-Xavi sabes o que é a fé?

Parte três

Xavi afundou os ombros, ergueu a cabeça e estendendo o pescoço, deixou a descoberto um acelerado arfar da “maçã-de-adão”, Deixando transparecer grande intranquilidade.
Lembrara-se agora da frase que o avô lhe repetia vezes sem conta.
Teria o seu avô dúvidas onde estava a sua fé, ao repetir aquela frase?
“Se um dia encontrares a fé segura-a com todas as forças do teu ser”.
Estaria o”moleiro-da-Aldeinha sentado na rocha, todas as horas, a procurar a fé?
-Tenho de ir a correr!
-Como pode o meu avô viver sem fé?
-Vou dizer ao meu avô que eu tenho muita fé, posso partilhar com ele!
-Ó não!
-Que posso eu dar ao meu avô?
-Poderei dar ao meu avô o outro lado da fé e eu ficar com o lado do mar?
-Por ventura poderei mostrar ao meu avô onde está a minha fé?
-E os tentilhões terão fé?
-Agora fiquei confuso!
-Quão imperfeito eu sou.
-Quero partilhar com o meu avô, sem saber o quê!
-Tenho muita fé e não sei onde está!
-Sei que meu avô não pode viver sem ela mas não sei encontra-la para repartir!
-Pede, que a segure com todas as forças do meu ser!
-E eu afinal conheço a fé?
-O que posso eu segurar com todas as forças do meu ser?
-Porque faz falta a fé ao meu avô?
-E ao moleiro-da-Aldeinha?
-Vejo que estais aí á tanto tempo parado e murmurando, em que pensais Xavi?
-Moleiro podeis dizer-me se o malhadinho morreu sem fé?
-E o mingas, morreu de tristeza por não ter mais caminhos, nem farinha, nem milho, nem dono feito alforge cheio de vinho.
-Ou teria morrido por não ter fé?
-E tu moleiro
-Podeis ajudar-me a encontrar a fé, para eu guardar com todas as forças do meu ser?
O moleiro depois de um breve silêncio respondeu:
-O malhadinho, o mingas, os tentilhões, as borboletas as formigas todos os bichos e plantas que o teu avô observa e comtempla vivem a vida.
-Para viver a vida precisam somente de razão, verdade, solidariedade e amor
-Eu, o teu avô, tu e demais homens e mulheres, pretendemos viver outra vida!
- Para isso concebemos outra vida para lá da vida!
-E para que uma conceção de vida para lá da vida se mantenha e se aprofunde precisamos individualmente de viver e conceber a fé!
-Se um dia conceberes a fé, podeis repartir com o teu avô a alegria de acreditares que podeis viver outra vida para lá da vida.
-Antes de partires Xavi
-Deixai-me declamar-te uns versos que um velho me ensinou quando eu era menino como tu e buscava a todas as horas a razão para a minha fé.

A Fé

-Viver uma vida dorida,
-esperando a vida imortal!
-Mas só é certo na vida,
-Termos um dia final.

-Sobrepor uma vida a vida!
-Vivendo-a como ela é,
-trocar a vida vivida!
-Por uma vida de fé.

-Fé bem eu queria ter,
-para poder acreditar!
-Que outra vida ia viver,
-Quando a vida terminar.

-Quando o teu avô observa as borboletas, as formigas, todos os bichos e plantas, quando contempla as próprias mãos e escuta os tentilhões, talvez esteja pensando como eu…

-É bom ter fé na vida
-É bom uma fé qualquer!
-Mas terá de ser fé sentida,
-nem sequer tem fé quem quer

Xavi estava petrificado.

Pensava agora em todas as coisas que a mãe lhe ensinara sobre a fé…
Sabia bem que para viver a vida na vida, precisava de amor, solidariedade e verdade!
Desejava ter mais vida depois da vida, para isso precisava de fé!
Agora compreendo porque faz tanta falta ao meu avô, a fé!
Quero segurar a minha fé com todas as forças do meu ser!
-Moleiro, meu bom amigo!
-Para viver a vida na vida tenho amor, tenho solidariedade, tenho verdade, quero segurar a minha fé com todas as forças do meu ser, mas falta-me a verdade da minha fé!
-Poderá existir fé sem verdade?
-Estarei eu a deixar fugir a minha fé?
-Xavi meu bom amigo procurar a fé e a verdade é como encontrar o lado mais quente e o lado mais fresco do sol.
-Agora vai, encontra a tua fé e a tua verdade e reparte com o bondoso do teu avô!
-Tu pudeste encontrar o lado mais fresco e o lado mais quente do sol!
-Comigo só podeis aprender a verdade!
-Nada mais podeis aprender com um pobre velho sem fé.

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por setblog às 08:06

Domingo, 28.07.13

LIBERDADE

LIBERDADE
Ergo-me como o castelo de areia, nas mãos de uma criança numa qualquer praia deserta!
Tenho em mim a certeza mais incerta!
Pairo sobre os vales e as mais altas montanhas!
Ascendo ao cume, removo as suas entranhas!
Todo o meu caminho é tão longe e tão perto!
Percorro o infinito e repouso no deserto!
Rasgo o caminho na noite mais escura!
Não me detenho e enfrento o mar e a sua brutal bravura!
Ardo como um fogo que se não vê!
Sou a crença do que não crê!
Pelo caminho deixo o meu rasto!
Nasci do próprio destino e dele nunca me afasto!
Sou a matéria imaterial com que construo os meus próprios pés!
Viajo como a espuma dos mares no infinito ciclo das marés!
A todos abraço e não abraço ninguém!
Porque eu sou de todos e não sou de ninguém!
A minha passada é maior que os meus passos!
O universo são os meus próprios braços!
Como o rio, escorro suave e violento!
Refresco e corto como o vento!
Aos que me apontam caminhos, mostro-lhes a minha loucura!
Aos que me ameaçam com o medo, mostro-lhes a minha bravura!
Trespasso os muros de prisões!
Rasgo tratados e tradições!
Questiono as inquestionáveis contradições!
Ouso aos doutos pedir explicações!
Penetro nas torrentes de multidões!
Altero eternas definições!
Dou aos sábios sapientes lições!
Detenho-me em tudo e em nada me detenho.
Tenho de tudo e em mim nada tenho
Não nasci nem sei quem sou,
nem donde venho nem para onde vou!
Sei que sou para além da criação
Para além da absoluta verdade!
Sou o fruto do ser e da razão.
Porque eu sou a liberdade!


Joshué

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por setblog às 07:59

Quinta-feira, 21.03.13

ode á mulher

    ODE Á MULHER

A mulher para ser mulher

Não precisa de ser mãe

Mas se o for é mais mulher

Que mulher é mãe também

 

Candeia que não alumia

Deve sair do seu lugar

Pendure-se onde for dia

Servirá para enfeitar

 

A mulher se for mulher

Sê-lo-á sem sacrifício

Para a mulher ser mulher

Não basta ter orifício

 

Pode a mulher ser mãe

Sem chegar a ser mulher

Mas a mulher só é mãe

Sendo a mãe sempre mulher.

 

 

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por setblog às 23:56


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