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Domingo, 08.05.16

Carruagens desaparecidas

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Extrato II (D O H C D)

As carruagens, eram fantásticas, pena é que não se encontre algum exemplar ou uma qualquer referência na museologia ferroviária nacional. Talvez até tenham sido vendidas ao quilo como madeira velha. Recorrendo a uma simples descrição memorial, posso descrevê-las como uma obra de arte arquitectónica industrial, de rara beleza, técnica e funcionalidade, do primeiro quartel do século XX. Viajando no seu interior, podíamos percorrer um corredor longitudinal lateral com cerca de 16 metros de extremo a extremo. Com dez janelas para o exterior e uma porta em cada extremidade. Ao longo do qual corredor, dez portas envidraçadas na parte superior, davam acesso a dez cómodos e bonitos compartimentos. A beleza e comodidade de cada compartimento era verdadeiramente surpreendente. A todo o comprimento, os passageiros podiam dispor dois bancos, em ripas de faia polida, no assento e nas costas, com quatro lugares cada, mas onde por vezes se sentavam seis e mais passageiros, cujos bancos se estendiam até uma fabulosa porta. Também cada uma destas portas era constituída por uma parte inferior em madeira exótica polida e uma parte superior encaixilhada e com uma vidraça elevatória por meio de uma forte correia de cabedal virgem e brilhante. Ainda na parte inferior um robusto e estilizado puxador do mais fino e reluzente bronze emprestava ao conjunto uma identidade mítica, sedutora e apaixonante, cruzando um misto de emoções, entre a nostalgia tranquilizante e intimista do romantismo e a inquietude e operacionalidade da vanguarda modernista. Porém quando observada do exterior, era ainda mais arrebatadora, requintada, opulente, ostensiva e até bélica, mesmo para quem desconhecia a sua origem germânica resultante dos despojos da 2ª guerra mundial. Em cada extremidade, um elegante varandim resguardado com uma robusta e estilizada guarda em ferro fundido, acessível por três grossos degraus em madeira exótica. Enquadrada entre os dois varandins, uma longa fachada abaulada no eixo longitudinal, cor verde-oliva, ao longo da qual, alinhados e robustos dez patins, em grossa madeira, ressequida e impregnada de pó de carvão, cada um destes degraus dando acesso imediato ao seu correspondente compartimento, através de cada uma das doze fabulosas portas, cujas partes superiores envidraçadas, umas abertas outras fechadas, formavam um extraordinário conjunto de dez lindíssimas janelas altas e estreitas. Logo abaixo das janelas e perfeitamente alinhados, dez longos e grossos puxadores de bronze reluzente. Por detrás das vidraças podia avistar-se uma grossa cortina vermelha, o que conferia finalmente aquele monumento rolante uma sensação de absoluta ostentação e intimidade. Aquela carruagem era um expoente simbólico da nova beleza, da técnica, da força, da robustez e da grandeza das enormes proezas de construções móveis, da era industrial. Cuja maior afirmação logo a partir de meados do séc. XIX, os comboios puderam exibir na Europa mais desenvolvida. Quando nos fins-de-semana e vésperas de festividades, repletas de operários e outros passageiros, suspensos nos degraus e varandins, empoleirados onde houvesse um qualquer apoio para os pés, vindos da cidade faziam a viagem de retorno às suas aldeias. Aqueles monumentos tão belos como bélicos apesar da sua graciosidade também não conseguiam disfarçar a hostilidade e o temor, ao ver aqueles exames humanos, vinha-nos á memória as semelhanças com outros degraus, e quem sabe se aqueles mesmos, outras janelas, varandins e unidades de engate, pejadas de soldados do “15 de Tomar” em direção á Flandres, ou de judeus a caminho de Auschwitz e que muitos, feitos donos da história parece quererem ofuscar. Ecoava o prolongado e estridente apito da “033”. Uma imensa e compacta nuvem de vapor branco e quente, envolvia aquela fabulosa concentração de potência, Nos primeiros duzentos metros, o silvar do imenso tornado, formado pela libertação dos vapores, saídas com alta pressão das duas caldeiras e o ruidoso vaivém das imensas bielas daquele pequeno grande mostro, não permitiam a audição de qualquer fala de volume inferior a 60 ou 70 Db. Finalmente tudo voltava á tranquilidade da rotineira viagem, entre as encostas cavadas do Tejo e o silêncio ondulante das águas cristalinas e gélidas do imenso e sussurrante caudal que vindo das serranias Espanholas, depois de percorrer 800 quilómetros em ziguezagues e precipícios, escorria agora com tranquilidade e firmeza ao longo dos setenta quilómetros, que nessa viagem constituíam o percurso comum. Depois tudo regressava ao acolhedor ambiente daquele belo e intimo compartimento. …..

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por setblog às 13:34



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