Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

http://blogue velho.blogs.sapo.pt



Terça-feira, 18.07.17

ABSTRATO 6

ABSTRATO 6

No cemitério.

-Sabes Cesário, eu não me detenho em cemitérios! É essa a razão da minha hesitação.

-Sei que normalmente as pessoas neste dia visitam esses locais, se eu não entrar, poderão ficar desapontados comigo e eu pretendo estar bem com os meus novos companheiros, que agora são a minha família.

Cesário, dando provas de ser compreensivo e respeitador dos princípios dos outros, disse para João:
-Então vem aqui que te ensino a ligar a TV e quando quiserdes sair toma cuidado, não te ligues muito com “Algerianos” e Turcos, à noite não vás só para o bar.

João, depois de alguns breves minutos a ver TV e agora já com outros companheiros na sala; saíra dirigindo-se ao quarto onde ficara a ler um pouco, antes de ir para a cozinha da “Foyer” preparar o pequeno almoço.
De volta ao quarto preparara-se para ali ficar todo o dia, lendo e meditando nos mortos das Grandes Guerras e nas suas interações com ele próprio, com Cesário e com os novos companheiros...
João, sabia que a fé dos outros persuadi-los-ia, a contactar mais profundamente seus mortos particularmente neste dia; porém confinados a um espaço criado nos primórdios do Cristianismo, com a finalidade de fixar e pretensamente manter controlados os contactos com os mortos. 
João, sabia que também naquele espaço apenas estariam restos de ossos, que em breve também se haveriam de decompor. Sabia ainda que ali como em toda a parte, fluía a energia da “Memória e do Pensamento”!

Vinha-lhe à memória Canize, os Caminhos da “Memória e Pensamento” e voltava a questionar-se na intimidade do seu quarto:
-Que dirá Cesário aos mortos que vai visitar?
-E os mortos transmitir-lhe-ão alguma coisa nova?
-Ajudá-lo-ão a suportar a saudade da família?
-Ensinar-lhe-ão que não deve acreditar nos Algerianos?
-E afinal em quem poderá acreditar Cesário?
-Em quem acreditava meu Avô; que sucumbira em “La Lys” , às mãos de Alemães?
-Em que cemitério semelhante àquele, algures na “Flandres” poderão estar restos de ossos de meu Avô?
-Todos os ossos de meu Avô, teriam sido devorados por insetos, larvas ou até cães?
-Ter-se-ão decomposto?
-Teriam passado por algumas breves mutações e serão agora parte de outros corpos?
-Que parte de biomuléculas constituintes do corpo de meu avô, terão sido absorvidas pelo trigo, contido no pão, que acabei de comer?...
-Que parte do corpo de meu avô, fará agora parte do meu ser?…
-E da sua “Memória e Pensamento”; o que prevalece em mim?
-Que parte do meu conhecimento me é sistemática e continuamente, transmitido por meu Avô?
-A “Memória e Pensamento” de meu avô e de todos os mortos, flui livremente pelo Universo; poderá alguém pensar ser possível encerrar entre quatro paredes, sob quatro ou cinco, metros cúbicos de terra, a “Memória e o Pensamento”; -o ”Caminho dos Mortos” ?

João, sem querer continuava envolvido na tenebrosidade do seu “Pensamento mais profundo. Nem notara a aproximação de Cesário, que vinha mastigando e estendendo a mão para João, disse: 
-Toma é bolo de queijo; é muito bom é uma especialidade da “Espanhola”, amanhã podeis ir comigo para aprenderes onde é!

João, depois de agradecer, questionou Cesário:
-Então ainda não partiram?

-Não! Respondeu Cesário, tendo continuado:
-Só quando forem nove horas.
-O que me traz aqui é persistir no convite. Os teus companheiros de quarto acabaram de tomar o pequeno almoço, já estão de saída e tu não ficas bem aqui, todo o dia sozinho.
-Vais connosco e ninguém te vai questionar à cerca da tua religião ou da tua fé, cada um tem a que tem; vão longe os tempos em que era obrigatório ou proibido, esta ou aquela, hoje felizmente há liberdade até para não ter religião.

João Corda, estremeceu de emoção, num milésimo de segundo percorreu a sua história e viu como que uma luz intensa e clara, que envolvera Cesário e toda o quarto, composto de duas amplas janelas, quatro camas, ladeadas por uma mesa de cabeceira, amplo espaço e uma clareira entre os dois pares de camas, ao centro uma mesinha redonda sobre a mesma um amontoado de revistas da fábrica e uma lindíssima miniatura, amarela e preta de um “Peogeot” tipo 63A de 1904 à escala 1/40, que João, observava com todo o cuidado.

Cesário, vendo que a invulgar peça ficara esquecida por cima da mesa, disse para João:
-Guarda-la na tua mesinha, depois logo entregas esta raridade ao seu dono, provavelmente é do Fantunes: - inveterado colecionador, se fica por aqui desaparece.

Continuava Cesário, agora revelando uma requintada postura e um elevado grau de solidariedade.
-Não é bom que fiques por aqui, porque esses fulanos que estão daquele lado, são pessoas muito revoltadas!.
-Se te encontram só, ofendem-te na língua deles e sussurram indiretamente: -“Il est comme um chien”: -Dizem que és como um cão, porque não rezas em público. O problema, é se tu lhes respondes eles podem ser inconvenientes. 
-Eles ostentam de uma forma fanática a sua fé, não aceitam que outros tenham fé, ou culto diferente e se estão em grupo tornam-se agressivos, numa inaceitável prática de confrontação e parecendo quererem assumir posições extremistas!

João, sentia um fogo intenso no seu interior, mas percebia que não era momento propício para revelar qualquer atitude ou posição quanto aos seus próprios valores da fé e estendendo a mão para Cesário, num gesto de amistosidade, disse:
-Fico muito reconhecido pela tua camaradagem e aceito ir convosco, Cesário.

A viagem ficara aquém da expetativa, enquanto Cesário e restantes companheiros visitavam o “Cemitério das Cruzes” e o “Memorial da Grande Guerra”; João, ficara entusiasmado à assistir e a tentar compreender um jogo de “petanca”.
Ao tentarem um transporte público para a montanha, verificaram que tinham uma imensidão de pessoas na frente, o que os impedia de chegar de dia à montanha, tendo por fim desistido desse passeio. 
Depois de comprarem uma enorme baguete com queijo, dispersaram pela bonita Vila, tendo somente João e Cesário, seguido para a “Foyer”.

-Vais almoçar comigo João!
Dizia Cesário e acrescentava:
-Comigo e com um amigo que está doente no quarto e não sai, vai para três dias. Ontem esteve lá o médico da empresa e recomendou-lhe, além dos medicamentos, um resguardo de cama até dia três.
-Vamos surpreende-lo com a nossa visita e levamos-lhe uma “gateau au fromage” e repetia Cesário: - torta de queijo - era surpreendente e singular, a postura e solidariedade de Cesário, sempre preocupado em ensinar o “Francês” ao seu compatriota e novo camarada.

João, cedo se apercebeu estar na presença de um homem, que apesar de aparentar ser jovem, era por certo uma pessoa experiente de vida e por certo tivera uma educação invulgar: - cortês; solidário; tolerante e compreensivo - ao mesmo tempo, pragmático e exigente; o que lhe conferia um elevado grau e espírito de liderança, levando João, a aceitar de bom grado e vontade as propostas de Cesário.

Cada um empunhando uma enorme baguete e uma caixinha com bolos de queijo, caminhavam lado a lado, deixando para trás a densa folhagem amarela, de plátanos e faias que a madrugada de Outono se encarregara de espalhar pelo chão do passeio; em vincado contraste com a imaculada limpeza e o gigantismo do fantástico parque da “Marseillaise”, onde João, fizera questão de se deter a contemplar as gigantescas “Sequóias” e os majestosos “Cedros do Líbano”. 
Apressavam-se agora pelas ruas em direção a “Foyer”, a um ritmo bem superior, ao necessário num dia de folga!

João, reduzindo a amplitude da passada, olhando nos olhos de Cesário, disse com alguma hesitação:
-Pela amizade que me dispensaste e pela tua exemplar frontalidade, sinto necessidade de explicar a minha retração de entrar no cemitério.

Ao que de imediato Cesário, respondeu sem hesitações:
-Não careço de qualquer explicação, nem tenho o direito de te questionar sobre o assunto: - Contudo se te sentes mais tranquilo justificando - Pois faz favor: - não me incomoda. Antes pelo contrário o que me incomoda é saber que outros vão ao cemitério, apenas para cumprir uma formalidade.

João, ficava estupefato, o seu novo amigo acabara de admitir saber, que haveriam outros que não iam ao cemitério por convicção de fé, mas tão somente por formalidade.
João, fizera uma longa pausa e enquanto acendia um cigarro: pensava:
-Quantos dos camaradas que se detiveram no cemitério cerca de uma hora, terão estado ali, apenas por formalidade?
-Bom!…
-Uns terão ali permanecido por formalidade, outros terão estado na mais profunda convicção da sua fé.
-Por certo, cada um terá à sua maneira compartilhado o caminho pós morte de

 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por setblog às 11:05



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Julho 2017

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031

Posts mais comentados