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Quinta-feira, 29.06.17

ABSTRATO 2

 

 

(Transcrição parcial da obra, em edição, "ETERNISMO DEPOIS O HOMEM CRIOU DEUS".

Autor: F P Joshué.  29-06-2017- 11-02.)

...//...

 "ETERNISMO"

DEPOIS O HOMEM CRIOU DEUS

 

CAP. I O OPERÁRIO

 

 

João, tomava o operário pelas cinco e vinte da manhã e entrava no “compartimento sete”.

O Ti jacinto já ali permanecia sentado, dizia-se que não ia a casa à vários anos e que ali mesmo dormia contra as regras da C P. Porém tinha a complacência do chefe Jesus Corado, que fingia não o ver, ao passar revista ao comboio, certificando-se que tudo estava em conformidade, para nova viagem na madrugada seguinte.

Também Abel, entrara na anterior estação de Mouriscas e já dormitava sentado na frente do velho Jacinto. Numa marcha e via normal, bastariam seis; sete minutos, para o comboio percorrer o espaço entre aquela estação e Alferrarede, onde habitualmente João, tomava o operário.

Porém o traçado serpenteante, transpondo os gargalos afunilados das enseadas, percorrido quase na totalidade sobre velhas pontes de ferro, em velocidade moderada, em múltiplos e constantes ciclos de; -acelera e trava.- obrigavam a velha e corajosa “033”, a gastar cerca de trinta minutos para percorrer os seis kilómetros que separam ambas as estações.

Sempre a assoprar, a lançar vapores e a engrossar as neblinas nos profundos vales do Tejo, o estridente, agudo e prolongado silvar ecoando pelas encostas escarpadas, anunciará aos mais velhos, em aldeias distantes, a eminente chegada das chuvadas de Outono.

Ao chegar à estação do Rossio ao Sul do Tejo começava a festa, se na estação anterior tinham entrado cerca de vinte e tal operários, era ali que a maioria tomava o trem e se dirigia sempre aos lugares habituais.

Salvo no caso de um passageiro ocasional ter ocupado o lugar, todos viajavam no mesmo compartimento e com os mesmos companheiros.

Era numa ou noutra destas duas estações, que João Corda, entrava a correr no velho trem de ferro.

João, gostava de contar anedotas, participar em jogos e até cantarolava menos mal, porém nos últimos tempos andava muito apreensivo e estava decisivamente comprometido com o “sete”.

Não mais procurando outro compartimento. Passava a maior parte do tempo, a ler e a escrever algo de muito enigmático.

Procurava viajar solitário ou refugiava-se no seu habitual compartimento, na maior pacatez, onde habitualmente viajavam os mais dorminhocos.

Hoje, João Corda, tomara o seu habitual lugar no “sete”.

Além do Velho Jacinto, e do Abel, também o Sr. João Rosa, procurara aquele compartimento, por ser um dos mais adequados para quem pretendia recuperar de uma noite mal dormida, ler um livro, estudar ou conversar.

Também hoje excecionalmente ali viajava um casal desconhecido com ar discreto.

João Corda, depois de dar os bons dias, sentara-se ao lado de Abel e começara por fazer alguns rabiscos numa folha de sebenta, que logo guardara na pequena mochila verde militar, da qual retirara um pequeno livro e com notória inquietude abrira pelo separador e começara a ler.

 

As carruagens, eram fantásticas, pena é que não se encontre algum exemplar ou uma qualquer referência na museologia ferroviária nacional. Talvez até tenham sido vendidas ao quilo como madeira velha.

Recorrendo a uma simples descrição memorial, podem ser descritas como uma obra de arte arquitetónica industrial, de rara beleza, técnica e funcionalidade, da primeira metade do século XX.

Viajando no seu interior, podíamos percorrer um corredor longitudinal, lateral com cerca de 12 metros de extremo a extremo, com oito janelas para o exterior e uma porta em cada extremidade, dando acesso a um varandim no topo da respetiva carruagem..

Ao longo do qual corredor em frente das respetivas janelas, oito portas envidraçadas na parte superior, davam acesso a oito cómodos e bonitos compartimentos.

A beleza e comodidade de cada compartimento era verdadeiramente surpreendente:

A toda a largura, os passageiros podiam dispor de dois bancos, estruturados com ripas de faia polida, no assento e nas costas. Cada um dispunha de quatro lugares numerados. Porém muitos dias haviam em que se sentavam seis e mais passageiros no mesmo banco.

Os estilizados bancos estendiam-se até uma robusta porta de comunicação direta com o exterior.

Também cada uma destas portas era constituída por uma parte inferior em madeira exótica polida, sendo a parte superior formada por uma vidraça amovível, em corrediças de suporte, a com o auxílio de uma forte correia de cabedal virgem e brilhante. Uma proteção de luz, constituída por um grosso cortinado em fazenda cor de mel, convidava à intimidade no harmonioso compartimento.

Ainda na parte inferior um robusto e estilizado puxador do mais fino e reluzente bronze emprestava ao conjunto uma identidade mítica, sedutora e apaixonante, cruzando um misto de emoções, entre a nostalgia tranquilizante e intimista do romantismo e a inquietude e operacionalidade da vanguarda modernista.

 

Cada carruagem quando observada do exterior, era ainda mais arrebatadora, requintada, opulente, ostensiva e até bélica, mesmo para quem não tivesse memórias dos comboios, de origem Germânica a caminho de Auschwitz.

Em cada extremidade, o rebusto veículo dispunha, como já foi dito, de um elegante varandim, de comunicação com o corredor interior, com um robusto e estilizado resguardado em ferro fundido, acessível pelo exterior, por três grossos degraus em madeira exótica, igualmente resguardados por um elegante corrimão.

Enquadrada entre ambos os varandins, uma longa fachada abaulada no eixo horizontal, cor “verde oliva”.

Ao longo da qual fachada, alinhados e robustos oito patins, em grossa madeira, ressequida e impregnada com pó de carvão.

Cada um destes degraus, dava acesso imediato ao seu correspondente compartimento, através de cada uma, de oito robustas portas.

Cada porta dispunha de um longo e grosso puxador igualmente de bronze reluzente, a parte superior deixava ver através da vidraça a grossa cortina de fazenda cor de mel, como que a emoldurar os diversos rostos que ao longo do trajeto se iam assomando.

A robustez, a ostentação e a grandeza da invulgar unidade, em nada lhe subtraía o caráter de segurança, beleza e funcionalidade!

Aquelas carruagens alinhadas em composições de quatro cinco unidades, constituíam um elevado expoente simbólico da nova estética, da técnica, da força, da robustez e da grandeza das enormes proezas de construções móveis, da era industrial. Cuja maior afirmação logo a partir de meados do século XIX, os comboios puderam exibir na Europa mais desenvolvida e que em Portugal, em meados do século XX, ainda competiam, em pequenas viagens com as modernas carruagens de alumínio e bancos estufados, com aquecimento e compartimento bar.

Aqueles velhos monumentos, mais pareciam enxames, quando nos fins de semana e vésperas de festividades, repletas de militares, operários e outros passageiros, suspensos nos degraus, varandins e unidades de engate, empoleirados onde houvesse um qualquer apoio para os pés; vindos da cidade, faziam a viagem de retorno às suas aldeias.

Ou fazendo desdobramento nos dias de comboio internacional, pejadas de emigrantes e cabazes, a caminho das terras de França.

Ou convertidas em santuários de penitências e orações, quando nos dias 12 e 13 de cada mês, se amontoavam multidões de peregrinos a caminho de Fátima.

 

Tranquilamente João, continuava a leitura no “sete”, enquanto ecoava de novo o prolongado e estridente apito da “033” e uma imensa e compacta nuvem de vapor branco e quente, envolvia aquela fabulosa concentração de potência.

Nos primeiros duzentos metros, o silvar do imenso tornado, formado pela libertação dos vapores, saídos em alta pressão das duas caldeiras e o ruidoso vaivém, das enormes bielas daquele pequeno grande mostro, não permitiam a audição de qualquer palavra de volume inferior a 70 ou 80 Decibéis.

Finalmente tudo voltava à tranquilidade da rotineira viagem, de braço dado com o Tejo, entre suaves encostas e a pré planície, onde o majestoso rio, se esparrama e liberta de 900km, de opressão montanhosa, desde a cordilheira Cantábrica. Adquirindo a sua imagem mais serena entre salgueiros, choupos e milheirais, num silencioso e ondulante escorrer de águas cristalinas.

Qual mansidão, esconde o gigantismo e a brutalidade das próximas enchentes de Outono, quando salta das margens, provocando as mais violentas inundações, desalojando pessoas e animais. Transformando as belas planícies Ribatejanas, em infindáveis lagos de águas barrentas e traiçoeiras.

Agora tudo era só silêncio e a tranquilidade do acolhedor, belo e intimo compartimento.

Apenas era audível o compassado e embalador, toc; toc;…toc; toc; em cada junta de dilatação, dos curtos carris em aço; por brincadeira havia quem dissesse que eram rodas quadradas.

A viagem a partir de ali era curta, apenas trinta e poucos quilómetros, mas com uma velocidade baixa, parando em todas as estações, cedendo obrigatoriamente passagem a todos os outros comboios, parecia uma eternidade, especialmente quando não se aproveitava o tempo com qualquer ocupação.

João Corda, colocava o marcador de página, fechava o pequeno livro e preparava-se para o guardar na pequena barjuleta verde.

 

-A censura tacanha-

 

A seu lado, Abel procurava ostensivamente ler o título da obra, João, sem articular uma única palavra voltou a capa e exibiu-o, à socapa mas com determinação; era sobre a colonização espanhola das Américas, nos tempos de Pizarro, Cortez e outros.

João, fingira não dar importância à curiosidade do amigo, mas deixara ostensivamente a descoberto a capa do livro e fitando Abel, com alguma melancolia, dizia:

-Hoje vai estar neblina até ao almoço!

 

Enquanto nos compartimentos dianteiros se jogava cartas, cantava e brincava, no compartimento “sete”, todos dormiam profundamente, com exceção de João Corda e Abel.

Abel, como que aprovando a escolha literária de João, fazia um sinal com o polegar da mão direita ereto em posição vertical, indicando que sim e sussurrava:

-Deve ser interessante!

 

João, olhando para o lado, como que certificando-se que não havia por perto, gente desconhecida, ou colegas tidos como bufos, - o livro não era obra disponível na banca da “Livraria Bertrand”, existente na estação - fora adquirido no mercado clandestino, através de um amigo secreto de João, este ao ver o interesse de Abel e pela confiança nele depositada, de imediato o tranquilizou, dizendo com total franqueza:

-Segunda feira, já haverei terminado e se estiveres interessado, podeis dispor dele para leres.

 

O comboio circulava agora a dez quilómetros à hora sobre a velha ponte sobre o Tejo, em Praia do Ribatejo/Constância.

João, finalmente arrumara o livro na barjuleta de lona militar e recostara-se no banco de faia.

O dia começava a romper e já se vislumbrava, projetado na encosta da outra margem, o fabuloso perfil do pequeno, mas de uma extraordinária beleza e robustez medieval; o inexpugnável “Castelo de Almourol”, que fora baluarte de Templários, e quartel-general dos exércitos conquistadores, na formação do Reino de Portugal.

Situado numa minúscula ilha com o mesmo nome, no médio Tejo, não a mais de vinte metros da margem e cinquenta da linha férrea do nosso comboio operário.

 

-Então João não quereis ler mais?

Perguntava Abel, no seu habitual ar pachorrento, mas determinado e sedutor.

 

-Não! Não leio mais.

Respondera João, sem se alongar.

 

Continuava Abel, mostrando agora a sua outra face de rapaz inteligente e sagaz.

-Parece que andas cansado!

-Já não vais ver as miúdas, João!

-A “bolinha”, anda em cima de ti, que nem gato a bofe!

 

E expressando um sorriso maroto dizia:

-Se a Aldina não se põe à tabela!…

-No outro dia que vieste de moto, não te viu pela janela, veio para aqui a correr, procurando saber de ti.

-Mas ainda bem que veio, ao menos veio limpar-nos a vista!

 

-Até lhe passou o sono!

Gracejava Abel, mantendo o seu sorriso maroto e levantando o queixo, num gesto indicador para o Mainha; que entrara em Santa Margarida, como de costume e já dormia a sono solto; torcido de boca aberta debaixo da pala do boné de camurça e com a nuca assente nas ripas de faia polida.

 

João Corda, estava bem distante dali e procurando desvalorizar a conversa replicou:

-É bem gira!

-Bom e entre quatro carruagens cheias de homens e rapazes; qualquer uma outra; assim pintainha, cabelos compridos e brilhantes, roupinha alegre e com o joelhinho à vela, também o seria.

 

Chegando à estação de Vila Nova da Barquinha, lá entravam as meninas a ajeitarem-se como sardinha em lata, para gáudio dos ocupantes do “um” e inveja das muitas cabeças que se assomavam nas outras janelas.

As três moças entravam quase sempre no compartimento “um”, onde já viajavam doze e mais jovens e um ou outro menos jovem, que também procurava outras paisagens.

Já viajavam tantos de pé como sentados, apesar do protesto do revisor.

Terminavam ali os jogos de cartas e as “manhãs para trabalhadores”, - como os mais velhos chamavam aquelas cantarolas, anedotas e outras piadas – dali em diante, apenas e só graças, gracinhas e jogos de sedução. Restavam apenas seis quilómetros, com um apeadeiro de premeio e a viagem de sono e sonho, durava oito; nove minutos.

O comboio acabava de chegar e já se ouvia na aparelhagem sonora da estação:

 

-”Estação do Entroncamento”;

-”Atenção senhores passageiros, o comboio que acaba de dar entrada na linha cinco, precedente de Fraternal, destinado a operários, terminou a sua marcha, todos os senhores passageiros devem abandonar a composição, que vai ser retirada para parqueamento”.

 

Em poucos minutos centenas de operários, que nem símios em bananal, esfumavam-se em todas as direções, entre as dezenas de carruagens e vagões estacionados ou em marchas de serviço, em dezenas de linhas cruzadas, numa vasta área com mais de trezentos hectares, saltando por cima de engates, trespassando vagões e carruagens através de portas semicerradas, gatinhando sob as próprias unidades entre rodados, ou ousando numa arriscada boleia de uma composição em deslocação, para a qual e da qual saltavam em movimento.

Não se podia chegar atrasado e o posto de trabalho podia ficar afastado cem metros, ou mais de dois quilómetros. 

Continua em: www.facebook.com/fpjoshue

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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