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Domingo, 08.09.13

QUASE O FIM

DE: QUEFÉ
!QUASE O FIM!













































Anacleto, mantinha os olhos cerrados, os lábios feridos e secos estavam pálidos, como pálido estava o seu rosto.
As longas, fartas e matizadas, sobrancelhas, entrelaçadas com os ralos, esguios e finos cabelos cor de prata, iam esboçando um leve arquear, o que constituía o único sinal de que Anacleto ainda estaria entre os vivos.
-Não!
-Ainda não chames o Vigário!
Exclamava o João Ilídio, era o sacristão da aldeia, saberia com certeza a hora em que Anacleto seria chamado pelo senhor!
O bom Anacleto por certo ainda vivo mantinha-se alheio a todos os choros, orações e lamentos de uma aldeia inteira que se comprimia na minúscula casa de grossos blocos de granito, com uma única e estreita abertura; A porta, bem junto aos pés da cama, onde carpiam algumas viúvas, e onde se assomavam alguns homens, fazendo o sinal da cruz sobre a testa e saindo de imediato manifestando o seu último ato de amizade e carinho pelo bom amigo e companheiro de tantas e tantas jornadas, quer fora nas tórridas e infinitas cearas Alentejanas, nas podas da vinha no Cartaxo, ou sovando de sol-a-sol as centenárias oliveiras na apanha da azeitona pelos gélidos e escarpados montes Albicastrenses nas encostas do Tejo Raiano.

Maria Luísa com a mão direita pegava docemente nas mãos geladas magras e enrugadas de Anacleto, as mãos que durante sessenta e quatro anos lhe deram amor, carinho e pão, na mão esquerda ia passando o terço e pedindo a nossa senhora que a levasse também.
-Nossa Senhora da agonia levai-me também para o céu!
-Eu não posso viver sem ti, meu querido!

Bem distante daquele ambiente consternador de cor negra e odor a morte, já se desenrolava outro e mais profundo diálogo;
Era o diálogo de Anacleto com a sua própria alma.
já em muitas ocasiões, Anacleto procurara o diálogo com a sua alma sem que alguma vez houvera tirado qualquer conclusão. Agora estavam mais perto e esse diálogo parecia bem mais plausível.

Anacleto, costumava questionar a sua alma:


-Eu sei que nasci de uma pequena porção do corpo do meu pai, e outra de minha mãe as quais Deus uniu dando origem ao novo ser que eu fui!
-Como todos os outros seres, unido por Deus, nasci, cresci, vivi e estou pronto para morrer!

-E tu?
-Também tens pai?
-E mãe?
-Quando e onde nasceste tu?
-Cresceste como eu?
-Quando eu nasci tu já existias?
-Onde estavas?
-Também tu serás o resultado da união de partes?
-Nasceste, cresces-te, vives e não morres como eu?

-Quando eu morrer, a minha carne será banquete de milhões de formigas, escaravelhos, larvas e outros insectos os meus ossos se não forem comidos por um cão, permanecerão tempos infinitos petrificados pelo chão até se tornarem em pó.

Agora era o diálogo final. Anacleto queria morrer em paz, paz com os homens e mulheres, com o mundo, consigo próprio e sobre tudo com a sua alma!

Esgotava o fim da sua energia e num esforço derradeiro tentava de novo.





























Parte dois

-Já não posso caminhar,
-E quase não sei sentir,
-Porque me vais abandonar,
-Na hora em que eu partir?


-Tu não partes, tu ficas só!
-Por aqui te arrastarás.
-A tua origem é o pó!
-E em pó te tornarás!


-Quando eu nasci para a vida,
-Foste parte do meu nascer
-Foi por ti bem mais sofrida!
-E hoje sem ti irei morrer


-Nós ambos somos só um
-a morte nos virá separar,
-não haverá dois sem um
-o tempo nos há-de juntar


-Por ti talhei meu viver,
-dei-lhe um único sentido!
-ficarás para sempre um ser
-e o meu corpo apodrecido!


-O tempo tem tempo de dar,
-aos corpos mais novas vidas!
-Virá de novo para juntar
-aos corpos, almas perdidas!


-Este pobre corpo então,
-só te serviu de abrigo!
-Se por acaso és a razão,
-levai-me também contigo!


-Eu não te posso levar,
-que eu não sairei daqui!
-Noutros corpos vou procurar,
-transmitir o que aprendi!



-Dizei pois se me disperso,
-entre as leis e a razão?
-Vagabundo do universo!
-Até uma nova união?



-Viverás em dispersão,
-como em dispersão vivi!
-Tu resultas da união
-dos elementos que há em ti!



-Qual átomo do universo,
-Que conterá minha razão!
-Tu farás caminho inverso,
-e se fará nova junção!



-Tu és um corpo singelo,
-Em qual espaço eu habitei!
-Tornei teu mundo mais belo,
-Com tudo que lhe ensinei!


-Por aquilo que me dizeis,
-Vivereis mesmo sem mim!
-Uma nova vida fareis
-E a vida não terá fim!

-O teu corpo é material
-que dessa forma agregado!
-com o que eu sou de imortal
-fomos um ser animado.



-Se como dizes és imortal!
-porque te separais de mim?
-para mim será o final
-e tu não terás fim!




-Sou tão só o conhecimento,
- tu és fonte de energia!
-permaneço no firmamento
-e juntar-nos-emos um dia!

Parte três


Já todos aceitavam a morte de Anacleto como um facto consumado.
Naquele minúsculo cubículo, reluzia agora um já muito ressequido pavio; ensopado em azeite e mergulhado num copo de vidro grosso, a Madalena, solteirona e muito voluntariosa andava numa roda-viva, a dar uma arrumadela na casa, a mudar a toalha do lavatório de ferro, a apanhar umas flores no quintal e a mudar as velhas e depenadas rosas da mesinha de cabeceira, enquanto ao lume já fervilhava uma cafeteira de barro da cor do carvão e não tardaria a misturar-se com todos os odores fúnebres, um reconfortante cheirinho a café, que depois da extrema-unção e de dizerem duas vezes que não, lá bebiam todos uma xícara bem quentinha.

-Não chores Maria Luísa!
-Ele vai para o céu, que ele era muito bom homem, sério
honesto trabalhador e muito religioso!
Enquanto não vem o Vigário vamos todos rezar um Pai-nosso.
Amem!...


Joshué

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por setblog às 13:02



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