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Domingo, 08.09.13

COMO TE CHAMAS

COMO TE CHAMAS?


A história aqui apresentada, embora baseada numa narração direta do próprio interveniente, ocorrida em 1961, na cidade de Lisboa, em Portugal, é de ficção, pelo que quaisquer semelhanças de nomes, lugares, ou instituições, é pura coincidência

O Autor





























COMO TE CHAMAS?

-Parte um:

Estava em silêncio á várias horas naquele inesquecível corredor, escuro como breu o intenso odor a couro ressequido misturado com pastas e papéis velhos, tornava o ar irrespirável.
-O vibrante “telim-telim” das campainhas dos eléctricos, o constante e ensurdecedor ruído do intenso trânsito na rua da Madalena, davam-me bem a perceber a que nível do solo me encontrava.
-Para aliviar um pouco as pernas, tentei encostar-me a um armário de chapa fria, mas o ranger da estrutura fez-me temer o pior e afastei-me levemente para o outro lado onde pudera sentir o escamar do verniz antigo sobre um lambri de madeira oca encimada por um estuque gasto e a esfarelar-se, não me restando alternativas, permanecia de pé no centro daquela masmorra.
-Cada roda de carro que batia numa velha tampa de esgotos, algures por cima da minha cabeça, era como se fosse um malhar duplo em bigorna quente, chocalhando-me o cérebro criando em mim a sensação de desequilíbrio como no jogo do “rola-rola”.
-Que notícia conteria aquela carta para conduzir uma criança inocente como eu a este degredo?
-Se ao menos um polícia os apanhasse…
-Não, um polícia não!
Já rezara uns duzentos” Pai-nosso”.
Mas também do lado divino não parecia chegar ajuda.
Soltavam-se as lágrimas e começava a soluçar…
Pensava nos conselhos que me dera minha mãe antes de partir da minha pacata aldeia.
-Questionara-me em silêncio!
-Que fizera eu errado para estar ali enclausurado?
-Só que ao menos soubesse onde estava!
-Um clique e num ápice uma intensíssima luz, expõe a exiguidade da minha cela.
-Reconheço na minha frente aquele senhor todo aperaltado que desfeito em sorrisos, recebera o malfadado envelope.
-E eis o meu grande espanto!
-Um polícia copiosa e rigorosamente fardado, erecto, bigode e sobrancelhas pretas, rosto carregado, de tez escura nariz largo e vermelhão, cujas mãos mais se assemelhavam ao amojo de uma vaca com dez meses de prenhez; na direita segurava um pequeno papel, a esquerda vincava os dedos no braço daquele meliante que me houvera convencido a levar aquela misteriosa carta ao balcão do Fonsecas & Burnay.
-Estava ali o meu salvador!
-Como fora injusto ao pensar que todos os polícias eram cruéis.
-Parte dois-
Guilherme fora criado num ambiente de temor para com tudo que usasse farda.
Se brigava com a mana!
-Á malandro que vem lá a guarda!
Se ia tirar um ninho de cia nos ciprestes do cemitério.
-Foge que vem lá a guarda!
Um dia armou uma ratoeira no quintal da ti Benvinda, para caçar um taralhão, lá ficou para todo o sempre; foi amistosamente avisado que a Guarda estava a vigia-lo.
Contou-me um inacreditável episódio:
-Um dia estava eu a almoçar em cima da bancada da oficina, onde eu pretendia aprender a mecânico, eis que se aproximou de mim um freguês assíduo e num habitual tom de troça perguntou:
-Que estais a comer Chiang Kai shek?
-Era uma forma de chacota, que ele utilizava com frequência, sem se dar conta que estava a banalizar o nome do ídolo chinês, apreciado pelos correligionários da sua doutrina conservadora e que o meu pai me dizia:
-Não deixes que eles te chamem esse nome:
-Coelho!
-Respondi, ainda com a boca meia de couves com feijões, coelho bravo que o meu pai apanhou ontem a noite!
-Brincadeira mal escolhida e traiçoeira!
-O revanchista ao ver que o enganei e lhe devolvi a troça, chamou dois fregueses que estavam na rua, arrolou o seu nome num papelinho e pouco tempo depois aparecia fardado de ” guarda-florestal”, seguido do meu pai, roxo de raiva e desespero.
-Onde vou arranjar oitenta mil e quinhentos?
-Não percebeu que era uma brincadeira de criança?
-Eu dou-te a brincadeira!
-Nunca lhe fora perdoada a coima, foram quatro dias de trabalho intenso na serração!

-Parte três-

-Como agora era diferente!
-Agora confiava naquele polícia que me apresentava o meliante que me enganara, mas que finalmente estava ali nas mãos fortes de um polícia que afinal prendia os maus e protegia os inocentes!
-Como te chamas?
-Guilherme Fernandes Sr. Guarda!
-Que fazias tu na rua às dez horas da manhã?
-Fui ao seguro fazer o penso neste dedo!
Guilherme exibia confiante o dedo polegar da mão esquerda, meticulosamente enrolado numa gaze acabadinha de aplicar por cuidadosos e competentes profissionais da companhia de seguros.
-Ao seguro?
-Mostra cá o papel.
Depois de desdobrar e ler letra a letra a quase imperceptível, gasta e desajeitada guia de tratamento, perguntou; agora numa voz quase aterradora!
-Como te chamas?
-Vou perguntar-te mais uma vez!
-Como te chamas?
-Guilherme Fernan…
-Aquela enorme mão, que um instante antes prometia a minha esperança, caia agora incompreensivelmente na minha face de menino com tal violência que não fiquei prostrado por não ter espaço, ficando apoiado no velho armário de chapa fria.
-Aquele monstro de olhos arregalados e dedo indicador espetado bem em cima do meu nariz, fitando o papel que eu de dois em dois dias exibia no seguro, ia para dois meses, voltava a perguntar-me:
Como te chamas?
-Agora sabia o que realmente era temor!
-Sabia que tinha caído numa enorme cilada.
-Precisava rapidamente de explicar.
-Senhor guar…
-Caluda! É a ultima vez que te pergunto!
-Como te chamas?
-O meu nome é…
-Deus me acuda, agora foi com as duas mãos, como se fosse um coice de burro em cada uma das minhas tenras faces.
-Fiquei algum tempo sem poder respirar e com a sensação de ter perdido a visão e os restantes sentidos.
-Aquele troglodita ao ver que eu não tinha capacidade para apanhar mais tareia e para meu alívio virando-se para o aperaltado cavalheiro que sorria a seu lado, anunciou:
-Eu já os levo para cima que isto é fácil, este fedelho não aguenta lá um estalo, vomita tudo antes de um gato se lamber.
-colocou uma argola de ferro no meu pulso direito, ligada a outra que colocou no pulso também direito do meliante, forçando-nos assim a caminhar abraçados e dificultando qualquer tentativa de fuga.
Com um sorriso maroto voltou-se para nós e verberou:
-Vamos, lá vão os amiguinhos abraçados parecem noivos, já ides ver a igreja!
-Virando-se para o meu indesejável companheiro, avisava:
-Estás a ver em que mãos é que estás pá!
-Não tentes e avisa ai o teu aprendiz, tu já sabes como elas te mordem.
-Ainda tentei de novo.
-Senhor guarda!
-Cala a boca se não engoles a língua!
-Caminhava agora quase a correr por entre um formigueiro humano que se entrecruzava na movimentada rua da prata na baixa Lisboeta.
-Assustado, nervoso, intimidado e exausto e de faces doridas, olhos no chão por vergonha, lá caminhava na ala direita daquele perigoso ” par de malfeitores” vigiados e amarrados a um valentão, bem protegido com pistola, cassetete e umas enormes mãos.
-Lá ia o “filho da escola”, mais na pele do condenado a caminho do cadafalso que do noivo para o altar.
“Filho da escola”; Era o nome pelo qual Guilherme era carinhosamente tratado na obra em honra ao seu pai e ao seu primo que eram ambos encarregados e muito respeitados, ele próprio muito querido de todos pelo respeito com que tratava todos os operários, pelo seu voluntarismo e pela dedicação que colocava em todos os pequenos trabalhos que lhe eram confiados.
-Aqui deve ser a esquadra!
-Ao menos aqui não serei visto com esta argola no pulso!
Numa velha secretária estava sentado outro polícia a quem o meu carrasco fez um estranho comprimento, levantando a mão junto da testa e com aquele sorriso que eu já bem conhecia, arqueando as espessas sobrancelhas e mostrando os ralos e enormes dentes negros, exultava com voz rouca, arrastada e vitoriosa.
-Cá estão eles chefe!
-Bom trabalho Leandro!
-Passa-os ao “G 2” e tira-lhe as algemas!
-Depois de me tirar aquela argola, virou-se para mim e num tom agora mais ameaçador que nunca, berrou:
-Fique sentado, se passar alguém levante-se e se abrir a boca arranco-lhe os dentes,
-E tu vem daí, ou estás a espera que te leve ao colo!-
-Desta vez não te safas!
-Fez-se um silêncio sepulcral e cada instante me parecera uma eternidade.
-Parte quatro-
-O tempo passava as memórias e as memórias passavam o tempo.
-Agora ia recordando tudo o que vivera até aquela hora fatal, que em vez do 28 para moscavide, decidi apanhar o 36 em tão má hora.
-Ó como eram frescos e belos os campos que a minha mãe rasgava nas madrugadas de Abril, onde semeava milhos e feijões, regava nas tardes quentes de Julho os batatais, onde ao fim da tarde o meu pai sulfatava as vinhas e eu procurava dentro da lancheira o resto da farinheira, que ele de propósito guardara ao almoço.
-Como eram doces as melancias serôdias e os figos “pingo de mel”, cheios de abelhas e formigas que eu mal assoprava já os engolia de uma só vez.
-E a minha irmã sempre a mimar-me com gominhos de laranja.
-Quando eu tivera anginas tirava as peles das uvas e deixava-as cair suaves e frescas bem no fundo da minha garganta, assim me alimentei três dias.
-E quando o meu pai anunciou que ia trabalhar para Lisboa!
-O Guilherme vai comigo!
-Não pode ficar aí aos ninhos e a armar ratoeiras que ainda vai preso e tem de começar a trabalhar.
-Foram dias de ansiedade!
-Havia de chegar á aldeia o meu primo que nos levaria até Lisboa.
-Todos anos vinha visitar a família, devia ser muito rico!
-Trazia bananas, café e até garrafas de vidro vazias, algumas bem bonitas, que depois lhe eram devolvidas cheias de bom vinho e licor de tangerina.
-Vinha sempre de automóvel, o que despertava enorme curiosidade, era muito raro ver-se um automóvel naqueles caminhos.
-Daquela vez esmerou-se!
-Que lindo automóvel!
-Era comprido e largo, preto brilhante, com um enorme degrau forrado de borracha para eu subir até aqueles fabulosos bancos brancos, uma grande roda suspensa na traseira, por debaixo da qual um imponente “para-choques” reluzente como um espelho, também na frente exibia, sobre o “para-choques” ainda mais assombroso dois enormes faróis igualmente reluzentes como nunca vira nada assim, ladeados por dois imponentes “guarda-lamas”, como duas torres avançadas, a intimidar qualquer aproximação estranha dos bancos reservados para mim, para meu pai, para minha tia que também havia de ir connosco carregada de galinhas, couves, frutas e chouriços; no banco da frente ao lado do marido ia a minha prima, de lábios pintados e chapéu branco, dizia-se na aldeia que estava feita uma rainha.
-Que figuraço eu fazia!
-A minha irmã tinha costurado para mim uma camisa azul forte, para os colarinhos tirou o modelo de uma blusa dela, era assim meio rapaz meio rapariga, mas era janota.
-Finalmente o meu primo pôs aquele monumento em marcha, apesar de entalado e quase sem poder mexer os pés nem esticar os braços, já que a bagagem não cabia toda na mala e junto de nós sempre ia mais uma cesta de vime com arroz de forno, galinha corada, bolos e vinho que havia de constituir um belo almoço algures á beira tejo.
-Senti-me um príncipe!
-Acenando com as duas mãos, lá ia eu a caminho da fabulosa odisseia.
-Mergulhado nos meus pensamentos, mal notei que se aproximara um guarda.
-Como te chamas?
-Vou ter de explicar!
-Este polícia parece-me mais simpático!
-Ouves mal ou és surdo?
-Sr. Guarda…
-Como te chamas?
-Berrou agora, como jamais ouvira berrar!
-Guilherme, Guilherme Fernandes
-Quando notei que ele fitava o meu papel do seguro, senti um frio intenso no rosto e a transpiração soltava-se-me das faces, prevendo e temendo o instante seguinte.
-Quase desfalecendo comecei a chorar!
-Agora é que estás com medo?
-Isso já te passa!
-Como te chamas?
-Também este não me ouviu e não me poupou a cruel e injusto castigo.
-Após tantas horas e tantas sevícias já não me doíam as dores, doía-me sim; o não saber do meu pai, como estaria ele sem saber de mim!
-Hoje não lhe cheguei a panelinha do feijão para o lume.
-Terá almoçado?
-Andará por aí que nem um louco a procurar-me?
-Não, aqui ele não vem procurar, sabe que eu não me meto em sarilhos e também não confia que a polícia me encontre.
-E na camarata?
-Talvez não tenham notado a minha falta.
-Ainda bem!
-Podem continuar a divertir-se á noite.
-Está-me a dar vontade de rir.
-No dia que cheguei assustei-me mas fui-me habituando e já acho piada.
-São catorze camas de dois andares, as roupas das próprias camas confundem-se com calças camisas e capotes.
-Junto dos pés todas têm uma caixa com ferramentas, tachos e vinho, alguns mais engenhosos esticaram uns arames onde suspendem as roupas domingueiras e até um saquinho com chouriço.
-Á noite, á luz de uma lâmpada suspensa ao centro da camarata comem todos os que têm resto do almoço ou um pouco de chouriço assado, com pão e vinho.
Não há mesa de senhores nem de serventes nem de operários, todos comem sentados na borda da sua cama.
-As conversas repetem-se todos os dias, mulheres; mulheres; mulheres!
-Não há cores nem luz!
-Só sons e muitos cheiros!
-É os restos de tachos azedos!
-É a máquina a petróleo do ti João do ferro!
-São os traques, que no meio de tanta gente, há sempre alguém, que desafia outro alguém e chegam a fazer concursos, uma vez o Pereira deu trinta e quatro seguidos, ganhou uma garrafa de branco.
-O pior é o cheiro das botas, misturado com cimento e latas vazias de atum e sardinha!
-Levantei-me de novo, eram dois polícias!
-Passaram por mim como cão por vinha vindimada.
-Mais outro e outro, agora passavam em grupo.
-São tantos!
-Mantinha-me de pé!
-Ai se agora me perguntam o nome…
-Desta vez matam-me!
-Fez-se de novo silêncio!
-Passados algum tempo senti um caminhar diferente e aterrador, podia ouvir os tacões compassadamente no soalho.
-Tinha acabado de me sentar no banco de ripas, onde o matulão me ordenara que só me levantaria quando passasse alguém, ou para ir lavar as cuecas se as tivesse borrado!
-Abre-se a porta na minha frente.
-Ergui-me quase num salto!
-Para meu temor, surge um polícia com mais dourados e bandeiras na lapela e nos ombros várias divisas igualmente douradas.
-Aproxima-se de mim sem articular uma só palavra, olhou-me nos olhos e deu meia volta…
-Senhor por favor!
-Senhor deixe-me comunicar ao meu pai que estou aqui.
-Estás aqui a fazer o quê?
-Estou aqui á espera que me chamem para eu contar toda a verdade.
-Então conta cá!
-Foram os dois minutos de maior esperança da minha vida.
-Só pretendia ver e ouvir o meu pai, poder contar-lhe porque estava ali!
-Parte cinco -
-Guarda Ventura prepare o carro, vamos aos Olivais!
-Fica sabendo se for verdade ficas logo lá, mas se me estiveres a mentir, vais todo partido para o calabouço e só de lá sais para a cova.
-Uma da manhã!
-Não se enxergava alma viva em toda a urbanização, onde durante o dia fervilhavam centenas de trabalhadores.
- Todos os operários estariam dormindo!
-Valeu-me o carocho do ti Cesário que num persistente ladrar acordou o sr. Carlos da venda.
-Boa noite; -O senhor conhece aqui um encarregado das obras chamado Corda?
-Conheço sim Sr. Guarda é o pai desse miúdo, foram todos para Lisboa á procura dele!
-Houve algum problema com o “filho da escola”?
-O teu pai está farto com chorar!
-Olhe sr. Guarda, eles vêm ali a sair do autocarro!
-O meu pai agarrou-se a mim e quase me sufocava com um terno, prolongado e forte abraço.
-O que aconteceu sr. Guarda?
-Quem faz as perguntas sou eu!
-Que faz este miúdo em Lisboa?
-Diz chamar-se Guilherme Fernandes e tem uma guia de tratamento no Seguro com o nome de Francisco de Matos!
-Sr. Guarda o meu filho aleijou-se!
Guilherme tomava empreitadas!
Por vinte e cinco tostões fazia um saco de palmetas ou endireitando uma caixa de pregos por cinco escudos, juntava um bom pecúlio para comprar uma bicicleta.
-Aleijou-se? Aleijou-se onde?
-Estava a brincar com a enxó e cortou um dedo!
-Já estou a compreender o menino não pode, mas trabalha nas obras!
-Aleija-se; não pode mas vai para o seguro!
-Não pode, mas trata-se com o nome de outro!
-O menino de coro cai no conto do vigário e entra no banco com um cheque furtado de setenta contos!
-Não fora a eficiência dos meus homens estaria agora de cana.
-Agora fica aí com o teu pai e se contas alguma mentira, venho cá e levo-te para a sacristia!
-Obrigado por me trazerem o meu filhinho são e salvo!
-Obrigado! Joshué

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por setblog às 12:28



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