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Sábado, 24.08.13

FIM DO MUNDO 47

FIM DO MUNDO 47

Os dias de Outubro costumam já ser um pouco frescos e ventosos.
As densas florestas estendidas num infinito carrossel de pequenas e regulares montanhas envolvem a pequena e branca aldeia num maternal e doce manto de mil verdes.
Não fora a tradicional novena na centenária capelinha, os fins de tarde tornar-se-iam monótonos e até enfadonhos.
Haviam de terminar sempre iguais!
Para as mulheres:
Regressando dos trabalhos do campo!
Carregando à cabeça enormes cestos raiados, a transbordar de comida para o gado e hortaliças para o jantar.
Enfiada no braço curvado, uma artística cesta de vime expõe com orgulho, os mais doces figos serôdios e o rebotalho de saborosos pimentos, tomates e pepinos.
Sobre o ombro dorido pela picota, carregam as ferramentas com que dia após dia, vão rasgando os solos e as próprias mãos.
Para os homens:
Quando o Caldeira fechara a taberna, que já o jantar estaria pronto e a mulher também!
As crianças juntam-se!
As meninas:
Cantam e dançam à roda, no largo da fonte.
Os rapazes mais velhos:
Vão dando uns pontapés numa bola de trapos ou numa bexiga de porco!
Um por outro ensaia os primeiros golpes de gilete na face e dissimulados pela palha amontoada na eira do santo, trocam conversas, experiências e reciprocamente observam as transformações fisionómicas decorrentes da mudança de idade.
Os mais pequenos:
Jogam à carica e ao botão!
Este, um jogo muito engraçado!
No chão equilibra-se um tubinho feito de cana, sobre o qual cada jogador sobrepõe um botão, de modo que fiquem todos acomodados e em perfeito equilíbrio.
De um seixo ou de um caco velho, antecipada e meticulosamente, prepara-se um pequeno círculo com quatro ou cinco cm de diâmetro, a”malha”, esta é arremessada uma só vez por cada jogador, a uma distância de quatro passos do tubinho, a que se chama “belho” tendo por objetivo, projetá-lo no chão.
Procurando colocar a “malha”, mais próxima dos botões, agora estatelados, que o próprio “belho”.
Retirando de seguida todos os que ficarem nesta condição.
Prosseguindo cada jogador, um após outro, até que todos os botões sejam retirados.
As bulhas não eram raras!
Todos colocavam um botão e havia uns galifões que retiravam todos de uma só jogada.
Se dúvidas havia quanto a medições, lá vinham as “meças!”
Pegava-se um pauzito do chão que esticava e encolhia conforme os medidores eram prejudicados, ou beneficiados.
Habitualmente, os juízes eram os tais galifões!
Claro!
Mas, mau! Mau!
Era quando um jogador ficava sem botões.
Não se podia desistir sem custos!
Chegava por vezes á ameaça de irradiação!
Ninguém podia ser irradiado, do jogo mais importante da aldeia.
Lembro-me de um dia o Carramim ter levado uma enorme tareia de cinto, por ter arrancado todos os botões das fronhas do enxoval da irmã.
Perdeu-os todos para o Gino que tinha olhos e unhas de milhafre.
Não entrava no jogo qualquer um; Havia uma espécie de quota mínima, os principiantes tinham que demonstrar existência, os grandes botões valiam mais.
Vi uma vez um botão de capote militar ser avaliado em oito pequenos.
Um dia para entrar no jogo o Manuel Techugo tirou dois botões da bata, que valiam três cada, esteve toda a manhã na janela da escola com umas orelhas de burro.
Era o castigo máximo dado pela justiça escolar, era pior que trinta reguadas!

O Zé Rosa e o Artur preferiam jogar à carica, por cima do muro da areeira, era um jogo mais calmo e mais nobre.
Partindo do início do muro, era objetivo chegar á meta, com um só toque em cada jogada, se um jogador deixava saltar a carica para fora do muro, regressava ao início, quem primeiro transpunha a meta ganhava, ganhava e nada mais.
Começava novo jogo, era assim horas e horas a fio.
Mas já no velho sino ecoam as primeiras badaladas!
É preciso ir pôr água no cabelo passar o pente e correr para a reza.
Não são permitidos atrasos!
Só o Ti Diamantino permanece agora sentado no muro!
Cegara aos vinte anos e apesar de ser completamente autónomo, aguarda sempre por companhia para ir até ao adro.
Toda a gente lhe presta elevada consideração e estima.
Homem culto, lúcido, conhecedor de todos e dos seus problemas, saudável e muito forte. Grande amigo e sobretudo um confidente.
Marca presença e notoriedade, desde manhã cedo até altas horas da noite, batendo com o bordão de salgueiro nas pedras da calçada, numa ou outra esquina, ou nos muros velhos de pedras toscas, forradas com musgos secos que hão-de renascer às primeiras águas.
Não passa pela porta da Ti Clemência sem dar um sinal de si!
Encosta o ouvido no postigo da Ti Florinda Lobata, certificando-se de que ainda se ouvem os gemidos, de vinte e cinco anos acamada.
Vai sempre à outra rua certificar-se de que a Mariazita lá está fazendo tiras e a Ti Brites, mesmo no pino do verão sempre á lareira a resmungar com o rabino.
Mas se em alguma casa não nota o habitual sinal de vida lá vai a correr chamar o Chico Fernandes, sempre bêbedo, mas sempre pronto a acorrer e constatar que tudo esta bem.
E lá prossegue de novo o Ti Diamantino, até ao muro do Caldeira.
Por vezes aproxima-se dele um jovem em silêncio, procurando testar as suas apregoadas capacidades de reconhecimento por apalpação.
Dizia-se á boca pequena que as moças aproveitavam!
Bom!
O homem era só cego!
Num ápice a noite caiu.
Há muito tempo já passara a Ti Silvina!
Era ela que passava o terço, cuidava da igreja, tinha de tratar do azeite para as lamparinas, passar um pano nos Santos e tratar dos paramentos.
Uma vez inesperadamente apareceu o pároco e teve de esperar que a Ti Benvinda fosse a correr engomar as vestes.
Não podia mais repetir-se essa falta de zelo!
Tinha também de acender as velas nos altares de São Simão e São Lucas, dizia-se que era ele que fazia a azeitona fundir.
A mais difícil era a lamparina suspensa no pórtico da capela-mor.
Era necessário baixar a corda prende-la no cutelo de São Simão, com muita paciência acender e subir de novo a lamparina.
Com o movimento e as correntes de ar apagava-se, certos dias havia de repetir a operação várias vezes.
Uma tarde, após ter conseguido seus intentos á primeira tentativa, abrindo um leve sorriso, com uns olhitos tão pequenos e negros como azevinhos, brilhando mais que as próprias velas naquela penumbra quase sepulcral, onde a sua pequena silhueta de criança mal se conseguia enxergar, virando-se para Nossa Senhora, ouvi-a murmurar:
-Mãe santíssima!
- Faço tudo isto com boa vontade!
-As vezes com muito sacrifício!
-Tu sabe-lo bem!
-Todas as moças da minha idade gozam a vida!
- Foram a bailes!
- Têm filhos!
- Têm homem todos dias!
- E tu bem sabes que algumas até têm mais que um!
- Eu nunca te deixei!
-Com toda a dedicação e devoção, estou sempre junto a ti!
-Ó!...
-Perdoa-me este desabafo, Mãe Santíssima!
-E ao menos levai-me para o Céu, quando eu for velhinha.
-Levai-me ao menos para o céu.
Já toca agora a segunda série de badaladas, pouco depois começa o terço!
Ninguém pode chegar atrasado.



Duas frestas rasgadas nas grossas paredes de enormes blocos de granito, deixam passar a escassa luz do entardecer, reflectindo-a nos ganchos em ouro e prata que prendem e adornam os cabelos pretos e molhados das raparigas por debaixo dos véus de seda transparente.
As mulheres, essas, mantêm os cabelos e grande parte do rosto cobertos com espessos lenços pretos.
As mais idosas chegam primeiro.
-Venham para dentro!
Reclamava a Ti Silvina, para algumas moças que gostavam de fazer finca-pé no adro, na esperança de ouvir algum galanteio mais ou menos lisonjeiro.
Depois entram os homens.
Os rapazes vão ainda ficando na rua até a última badalada.
Os garotos vão na frente das mulheres.
-Vai para dentro que já está a tocar a ultima vez!
Era a voz da ti Isaltina sempre a correr sempre atrasada e surda que nem uma galga de lagar!
Já a ceia ficara a ferver encima da trempe!
É preciso fazer tudo.
Quando a novena terminar têm de ter a comida pronta e pô-la na mesa.
O Caldeira vai já fechar e os homens chegam para comer.
-Venham para dentro, o terço já começou, reclamava a rosa.

Três badaladas…
-Em nome do Pai do Filho e do…
-Silêncio!
-Vamos rezar o terço em honra de Nossa Senhora...
Um estranho sussurrar crescia debaixo
do alpendre.
-Façam pouco barulho!
-Vamos rezar o terço em…
O burburinho estendia-se agora para dento da capela.
-Assim não é possível!
-Ai valha-me Deus!...
-Em nome do Pai do Filho e do Espí…
A Telvinita com toda a sua ingenuidade e singeleza olhou para traz e num tom aflitivo gritou:
-Um incêndio! Ti Silvina…
-Grande incêndio!
Fez-se um instante de silêncio e todos olharam para trás.
-Grande fogo!
Era a voz autoritária da Dona Aurora, fora regente de ensino, gozava de uma pensão do estado, como tal, de invulgar e respeitável credibilidade.
A Ti Silvina apertando o Crucifixo com mais força, entre as pequenas e alvas mãozitas, sobre abrindo os negros olhos, com o rosto agora transformado numa irreconhecível expressão de temor, soltou um prolongado gemido, voltando-se para Nossa Senhora:
-Ai Mãe Santíssima!
-Onde é o fogo? Onde é, o fogo?
Em uníssono, respondia a assembleia:
-Ali por cima do vale de beirins!
-Está tudo a arder!
-Credo! Santo nome de Jesus!
-Pai - Nosso que estais nos Céus...
-Vão buscar baldes!
Gritava o Ti João Léguas, era tão medricas, que enquanto gritava, corria no sentido contrário lá para as bandas da ribeira.
O açude dos Catrões, apesar da prolongada seca, ainda tinha muita água e seria por certo um lugar bem mais seguro.
Era a muralha mais imponente e vertiginosa e o maior fundão de toda a ribeira, que sob as mais belas e frondosas margens de salgueiros, amieiros, ulmeiros, choupos e silvados, serpenteava nos vales de batatas e milheirais, Que davam cor, alimento e felicidade a toda a aldeia que, de mais nada dispunha a não ser da sua capelinha.
A minha avó sempre muito atenta, costumava dizer-me:
-Não podes ir nadar para o açude, olha que tem lá cobras de água!
Mas aquele lugar era ímpar e irresistível.
Mergulhávamos bem do alto das enormes pedras ali estrategicamente colocadas por dezenas de homens e que constituem barragem de águas cristalinas, as quais se lançam abruptamente em catarata longa, espessa e branca, formando um véu de noiva que se completa com o frondoso e não menos alvo sabugueiro bem abraçado ao cume da muralha para onde os moços subiam e se ocultavam das mulheres que vinham lavar as roupas, mostrando uns aos outros os corpos ainda nus e a escorrer, antes de voltarem a vestir as roupas.
Surgindo de novo com uma canita, um fio e um anzol. Disfarçando com uma muito provável pescaria de bordalitos, enguias, ou até capturando um cágado, brincando com ele nas margens transparentes do pego.
A Ti Silvina fazia a terceira tentativa!
-Ai Nossa Senhora nos acuda!
-É um vulcão!
Grita o João Neto:
Trabalhava em Lisboa, saberia muito bem como é um vulcão!
Todos correram para junto dele debaixo do alpendre, já ninguém ficara dentro da capela.
-E chega aqui?
-Não!
-Não é um vulcão!
Era a primeira vez que se ouvia a voz do Caldeira junto da igreja, nunca deixara a taberna.
-Ó Corda foste tropa nos Açores, não há lá um vulcão?
-Não!... Não pode ser um vulcão!
-Isto é muito mais que um vulcão!
-Ai Credo em Cruz!
-Nossa Senhora nos acuda! Santo nome de Deus!
-Rezai todos o terço, eu vou ao Sardoal perguntar à Guarda, eles saberão com certeza.
-Eu vou contigo Corda.
-Não, eu vou de bicicleta!
-Ai Jesus!
-Vai depressa Manel!
-Agora vamos todos rezar o terço



Já poucos iam para dentro, ouviam-se alguns soluços e a Ti Mariana corria pela rua abaixo com a neta ao colo, gritando:
-Acudam! Acudam!
Outros mais corajosos subiam ao alto do serro, tentando ver melhor e já se ouviam no cimo do monte os gritos de aflição:
-Acudam!
-Isto vem do Céu!
-É esta a profecia!
Começam abraços, choros, suspiros, as crianças gritam e correm para os colos dos Pais.
Debaixo do alpendre forma-se um cacho humano de corpos abraçados. Olhos rasos de lágrimas e bocas que já não articulam palavras, apenas e só gemidos e gritos.
Apenas o Ti Acácio; figura acolita da igreja, que além de pai de um seminarista, sacristão, Cabo chefe e regedor, era também o moleiro da aldeia e sobre tudo endireitava a espinhela e benzia do “mau - olhado”. Uma palavra sua era como uma lei divina.
Suplicava:
-Silêncio!
-Rezamos o terço!
-Pai Nosso que estais nos céus...
Ele próprio trémulo, voz rouca submissa e temerosa, exclamou:
-Queridos irmãos! Dizem as escrituras que desta vez o mundo acaba com fogo!
Gritos de todas as bocas, desmaios, rostos horrorizados colam-se de olhos cerrados, amontoam-se os corpos, como que todos queiram ir abraçados para o céu.
As longas, cruzadas, e sobrepostas línguas de fogo de tons nunca vistos nem descritos, estão agora já sobre as cabeças.
Havendo já quem sinta o calor do fogo e provavelmente no fundo daquela amálgama humana quem tenha perecido e descanse agora em paz.
Era mesmo o fim do mundo!
-Salvemos as nossas almas!
-Perdoamos uns aos outros!
-Todos os que perdoarem serão perdoados.
-Não há sacerdote, mas podemos confessar-nos a Deus!
O primeiro foi o Jerónimo:
-Perdoa-me João fui eu que te denunciei!
Coitado do João Palheto tivera seis anos preso em Peniche, sem saber porquê.
Onde lhe arrancaram as unhas da mão direita, ficando aleijado para sempre.
Dizia-se que pregara um papel no freixo do adro a pedir água para a aldeia.
Outro grito, entre tantos que se confundiam.
-Perdoa-me fui eu que deitei fogo a tua cevada!
-A ti Ventura!
-Que estais nos céus! Perdoa-me, roubei-te os cortiços no “Monte de Além”.
-Nossa Senhora de Fátima!
-Levai-me para o Céu que eu dou-te tudo o que tenho!

A Ti Adelina, desfeita em lágrimas, soluçando e escondendo o rosto, murmurava com voz trémula, pedindo desculpa ao seu falecido:
-Peço-te perdão Calisto, tanto que tu trabalhavas tão longe, de nada sabias e eu enganava-te com o pastor de Bioucas.
Todos fechavam os olhos, ninguém queria presenciar o tenebroso holocausto final!
As aterradoras línguas de fogo já envolviam as árvores os prados e as montanhas, o escarlate reflectido nos rostos já os mostrava a arder.
Homens mulheres e crianças na aldeia eram ao todo 193 pessoas. 192 criaturas de Deus estariam naquele cacho humano de onde já mal se ouviam alguns gemidos e poucos ais.
A agonia era total!
Até o Ti Luís veio juntar-se ao horror do juízo final!
Nunca antes se vira na aldeia!
Só os mais velhos o conheciam!
Vivia há trinta e tal anos no serro, entre estevas e margaças, num palheiro sem porta nem janela, envolto em silvas e uma ameixeira pardinha, de onde só saía de noite para “pregar”!
Muitos chamavam-lhe o poeta!
Era frequente fazer as suas pregações em verso!
Por vezes iam os jovens à noite com o Ti Diamantino para à tapada, ouvir os seus sermões.
Ao domingo à noite enquanto as raparigas cantavam e dançavam no largo da fonte, costumava declamar esta espécie de lengalenga:

-Os meus versos não são meus,
-Nem é minha a sua razão.
-Os versos são de quem os canta,
-Sentindo-os no coração!

Dizia-se que ficava a chorar, horas e horas seguidas.
Depois voltava com nova lengalenga!

-Cantai e vivei agora,
-Gozai bem o presente.
-É que um futuro de tristeza,
-Espera por toda a gente!


-Para onde foram meus dias?
-Aqueles que eu não vivi!
-Aqueles que estais vivendo,
-Não foi por certo eu que os perdi!



-Quando um dia perdi a pele!
-Tornei-me pessoa medonha.
-Mas há muitos de pele nova
-e detendo pior peçonha!


-Ao deitares fora o pano!
-Cuidado não fiques nu.
-Se hoje eu vivo tão gelado,
-Amanhã podes gelar tu.

-Se o destino me marcou,
-no ventre de minha mãe.
-Fez de mim aquilo que eu sou,
-o que fará de voz também?

-Jamais vos abandonei,
-meu coração vive a sangrar.
-Por amor eu vos deixei,
-para o mal vos não pegar!

Assustei-me ao vê-lo!
-Assustei-me, não pelo horror que a sua imagem me causou!
Quase sem nariz nem lábios, a roupa; talvez retirada de um espantalho, coberta de barro, agora ainda mais vermelho; pelos reflexos das tremendas labaredas de fogo, um barrete negro e espesso como o barro ressequido, escondia-lhe o crânio e as orelhas, não deixando a descoberto mais que dois pequenos orifícios onde outrora por certo brilharam dois olhos.
-Assustei-me sim! Com medo de não morrer e compreendia agora aquela estranha lenga-lenga que lhe costumava ouvir à noite.
-Todos quando o ouviam faziam chacota:
-Olha lá esta o poeta a pregar!
-Amanhã vai chover!
-Só as crianças e o Ti Diamantino escutavam e queriam entender o que ele dizia:

-Cai a moça, porque é bela!
-Cai o pescador ao mar,
-Cai o homem encima dela!
-Cai o véu com acaba de casar!
-Cai um pássaro do ninho,
-Cai a beira do beiral!
-Cai do berço o menino,
-Cai-lhe o cordão umbilical!
-Cai que nem peixe em anzol,
-Cai a noite pela janela,
-Cai como em mel a sopa mol!
-Cai o pau nas costas dela
-Cai cansada no colchão!
-Cai no sono e ouve chorar,
-Cai num sonho de ilusão,
-Cai em si e dá-lhe de mamar!
-Cai no sono exausta e nua!
-Cai de tanto trabalhar,
-Cai de novo e vai para a rua,
-Cai o dia e volta a lutar.
-Cai na soleira cansada!
-Cai de joelhos para santa!
-Cai e enferma deitada!
-Cai mil vezes se levanta!
-Cai cansada de cair!
-Cai-lhe o próprio coração!
-Cai, vai, vem, e torna a ir!
-Cai finalmente no chão!

Junto da capelinha, só o Ti Zé Emídio, “O Louco”, permanecia sentado no mesmo poial de sempre!
-Anda para aqui Emídio!
-Que Deus lhe dê perdão!
-Não sabe o que faz!
-Coitadinho!
Quase ninguém lhe ouvia a fala, passava as madrugadas a armar aos pássaros e aos láparos, as tardes eram dormidas debaixo da frondosa amoreira da Ti Brites. Ao fim da tarde, depois de assistir ao terço, sentado da parte de fora da capela, recolhia ao palheiro do “tio Esteves” onde vivia com um enorme gato, tigrado, um molhe de ratoeiras e um saco.
-Vem para junto de nós Zé Emídio!
-Vamos todos morrer!
-Deus também te perdoa e também te levará para o Céu!
-Tenho vergonha…
-Não tenhas receio, confessa tudo!
-Não é isso! Eu só queria pedir uma coisa, Ti Manel Silva!
-Pede filho!
-Pede!
-Pede tudo!

Era este o homem mais rico da aldeia dono da maior quinta onde abundavam os mais variados e melhores frutos, legumes e animais, onde ninguém ousava cruzar uma vereda ou contemplar um qualquer fruto.
Um dia deu uma tareia com um pau de marmeleiro no Zé Biscas porque este se atrevera a ir beber água na bica do tanque.
A fama da sua adega e carnes curadas era pregoada por toda a região e não era raro, patrulhas da Guarda Republicana da Vila e de outros Concelhos, passarem a caminho da quinta.


-Sei que vamos todos morrer!
Balbuciava o Ti Zé Emídio!
-Se o Ti Manel Silva…
-Diz rapaz
-Estou com vergonha!
-Diz!
Diz tudo, que eu perdoo-te tudo.
-Eu… Eu… Queria pedir uma coisa.
-Pede tudo, que seja pelos nossos pecados!
-Se o Ti Manel Silva…
-Eu nunca provei do seu presunto, nunca bebi do seu vinho nunca|…
-Ah! Se me emprestar as chaves da sua adega! Irá direitinho para o Céu e eu amanhã devolver-lhas-ei.
-E que seja pelas suas intenções
-Toma!

Era mesmo o fim do mundo!
-Vai come e bebe tudo o que tiveres na vontade.
-Coitadinho, Deus lhe dê perdão, não sabe o que faz!
-Que ao menos morra em paz!


O dia seguinte nasceu radioso, toda a gente seguia muito cabisbaixa para os campos.
O Ti Zé Emídio, “O Louco ”, lá foi cumprir a promessa, entregando as chaves ao Ti Manel Silva.
E certamente ansiando outra Aurora Boreal. Joshué

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