Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

http://blogue velho.blogs.sapo.pt



Domingo, 28.07.13

VELHO SEM FÉ

VELHO SEM FÉ


A história aqui apresentada embora baseada numa narração de um facto ocorrido nos meados do século XX, numa aldeia do litoral da Estremadura norte, em Portugal, é uma peça de ficção, pelo que qualquer semelhança de nomes, lugares, ou instituições é pura coincidência.

O Autor























O VELHO SEM FÉ





-Não sei como te chamas!
-Não sei onde moras!
-Não sei se tens amigos!
-Não sei se tens nome!
-Não sei se tens casa!
-Não sei se tens quem goste de ti!
-Não sei

-Se ao menos tens com que almoçar!
-Se tens alguém para falar!
-Se tens alguém a quem amar!
-Se tens um colo para chorar!

-De ti apenas sei:

-Que fazes o caminho caminhando!
-Que gastas a rocha por nela te sentar
-Que gastas o teu olhar olhando!
-Que gastas o bordão por nele te apoiar!

-Que pareces ver no mar
-Donde vem a escuridão!
-Como quem só quer amar,
-Sem encontrar coração!

-Dizei-me pois o que procuras
-e se queres ser meu amigo.
-Não vivas mais as escuras,
-farei o caminho contigo!


Parte dois

-Há tantos anos que busco a luz do meu destino e agora uma criança como tu abre o caminho da minha razão!
-Quem és tu menino?
-Xavier é o meu nome!
-Todos me chamam Xavi.
-Moro para lá daquele cerro e venho apanhar conchas para fazer um colar para a minha irmã que faz anos.
-E tu como te chamas?
-Sou o “moleiro da Aldeinha”
-Talvez tenha outro nome mas não me lembro!
-O ciclone de 41 levou-me o moinho!
-Também o malhadinho voou naquele fatídico dia.
-Coitado do malhadinho, nunca soubera o fim dele!
-Só comia pão, ele e eu, por vezes comia uns ossitos secos, que encontrava no chão das festas da “senhora da luz”.
-Era um verdadeiro amigo, em cada aldeia que parávamos a entregar a farinha dormia uma valente soneca, mesmo assim á noite sempre tinha sono para dormir em cima das minhas pernas, servia-lhe de ceia,
-Eram todos os meus pertences!
-O meu moinho, o meu malhadinho e o pobre do “mingas” que resignadamente, anos e anos transportava a farinha, o milho, o “moleiro da Aldeinha” e o vinho que ele bebia.
-Tudo em troca de comer o que pudesse chegar pelos caminhos onde passava.
-Morreu de tristeza por não ter mais caminhos, nem milho, nem farinha, nem malhadinho, nem dono como um alforge dobrado no seu dorso...
-Vai; Vai apanhar conchas Xavi!
-O meu caminho não dá para dois…
-Tu és um bom menino!
-Não podeis pisar este caminho tão agreste, sinuoso, tenebroso e sobretudo tão desconhecido e irracional…
No dia seguinte logo pela manhãzinha
-Estás aí de novo Xavi!
-Sim!
-Trouxe-te um bordão novo, o teu já está muito gasto!
-Hoje também te quero oferecer o sol!
-Pode ficar para os dois; Desse lado é todo para ti eu fico com o lado do mar, é mais fresco!
-Não quero que me contes mais histórias de tristezas, como a do malhadinho ou do mingas.
-Hoje sou eu que te conto uma história!
-O Tó oferece-me dois tentilhões pequenos tão pequeninos que tinham os olhitos ainda fechados e só tinham penugem.

-Com a ajuda do meu avô, dei-lhes comida e água, ficaram grandes! Muito bonitos e todos vestidinhos, com as penas mais macias que eu já senti, coloridas e de contrastes fortes em tons de cinza, preto, azul-cobalto e branco, com recortes tão perfeitos que eu nunca consegui copiar apesar de ter uma boa caixa de aguarelas e todos dizerem que tenho muito jeito para desenhar e pintar.
-Já piavam e saltavam, mas a gaiola parecia-me pequena, o meu avô construi uma gaiola muito maior e mais bonita, continuava a parecer-me pequena!
-Numa manhã de sol como hoje, com a ajuda do meu avô levei-os até ao trigal e abri a gaiola!
-Jamais pensei como duas aves tão pequeninas pudessem mostrar tanta gratidão e felicidade, voavam em círculo sobre mim chilreando, parecendo beijar-se e querendo beijar o meu cabelo.
-Foi o dia mais feliz da minha vida!
-Vêm agora todas as manhãs na laranjeira do meu quintal dedicar-me a mais linda sonata de gratidão e amor!
-O teu avô só pode ser um homem tão bom, quanto tu és um bom menino.
-Agora vai Xavi!
-O teu avô deve estar a tua espera.
-O meu avô está sempre à espera!
-Ninguém sabe porque espera o meu avô!
-O meu avô tal como tu fica horas sentado a olhar o mar, o céu, as estrelas, a lua e as suas próprias mãos!
-O meu avô contempla as borboletas, as formigas, todos os bichos e plantas sem dizer uma palavra.
-Só quando está a sós comigo pronuncia sempre a mesma frase:
-Filho se um dia encontrares a fé segura-a com todas as forças do teu ser!
-Ouve bem o que te digo:
-Se um dia encontrares a fé, segura-a com todas as forças do teu ser…
De novo o “moleiro da Aldeinha”, vendo que Xavi ficara emudecido, de olhos semicerrados parecendo procurar no seu próprio interior algo sem saber o quê.
Quebrou o silêncio e disse:
-Obrigado pelo meu novo bordão!
-Obrigado pelo sol que comigo repartiste!
-Obrigado também pela liberdade que devolveste aos tentilhões!
-Obrigado ainda por me apresentares o teu avô…
Xavi permanecia atónito e fitando aquele homem tão estranho e tão parecido com o seu avô.
Agora ambas as mãos emolduravam-lhe o rosto seco e enrugado, donde pareciam querer saltar dois grandes olhos negros, um enorme nariz, uma densa e longa barba branca escondia-lhe a boca tornando-a numa ténue e enigmática linha.
Xavi preparava-se para partir, quando o moleiro lhe perguntou
-Xavi sabes o que é a fé?

Parte três

Xavi afundou os ombros, ergueu a cabeça e estendendo o pescoço, deixou a descoberto um acelerado arfar da “maçã-de-adão”, Deixando transparecer grande intranquilidade.
Lembrara-se agora da frase que o avô lhe repetia vezes sem conta.
Teria o seu avô dúvidas onde estava a sua fé, ao repetir aquela frase?
“Se um dia encontrares a fé segura-a com todas as forças do teu ser”.
Estaria o”moleiro-da-Aldeinha sentado na rocha, todas as horas, a procurar a fé?
-Tenho de ir a correr!
-Como pode o meu avô viver sem fé?
-Vou dizer ao meu avô que eu tenho muita fé, posso partilhar com ele!
-Ó não!
-Que posso eu dar ao meu avô?
-Poderei dar ao meu avô o outro lado da fé e eu ficar com o lado do mar?
-Por ventura poderei mostrar ao meu avô onde está a minha fé?
-E os tentilhões terão fé?
-Agora fiquei confuso!
-Quão imperfeito eu sou.
-Quero partilhar com o meu avô, sem saber o quê!
-Tenho muita fé e não sei onde está!
-Sei que meu avô não pode viver sem ela mas não sei encontra-la para repartir!
-Pede, que a segure com todas as forças do meu ser!
-E eu afinal conheço a fé?
-O que posso eu segurar com todas as forças do meu ser?
-Porque faz falta a fé ao meu avô?
-E ao moleiro-da-Aldeinha?
-Vejo que estais aí á tanto tempo parado e murmurando, em que pensais Xavi?
-Moleiro podeis dizer-me se o malhadinho morreu sem fé?
-E o mingas, morreu de tristeza por não ter mais caminhos, nem farinha, nem milho, nem dono feito alforge cheio de vinho.
-Ou teria morrido por não ter fé?
-E tu moleiro
-Podeis ajudar-me a encontrar a fé, para eu guardar com todas as forças do meu ser?
O moleiro depois de um breve silêncio respondeu:
-O malhadinho, o mingas, os tentilhões, as borboletas as formigas todos os bichos e plantas que o teu avô observa e comtempla vivem a vida.
-Para viver a vida precisam somente de razão, verdade, solidariedade e amor
-Eu, o teu avô, tu e demais homens e mulheres, pretendemos viver outra vida!
- Para isso concebemos outra vida para lá da vida!
-E para que uma conceção de vida para lá da vida se mantenha e se aprofunde precisamos individualmente de viver e conceber a fé!
-Se um dia conceberes a fé, podeis repartir com o teu avô a alegria de acreditares que podeis viver outra vida para lá da vida.
-Antes de partires Xavi
-Deixai-me declamar-te uns versos que um velho me ensinou quando eu era menino como tu e buscava a todas as horas a razão para a minha fé.

A Fé

-Viver uma vida dorida,
-esperando a vida imortal!
-Mas só é certo na vida,
-Termos um dia final.

-Sobrepor uma vida a vida!
-Vivendo-a como ela é,
-trocar a vida vivida!
-Por uma vida de fé.

-Fé bem eu queria ter,
-para poder acreditar!
-Que outra vida ia viver,
-Quando a vida terminar.

-Quando o teu avô observa as borboletas, as formigas, todos os bichos e plantas, quando contempla as próprias mãos e escuta os tentilhões, talvez esteja pensando como eu…

-É bom ter fé na vida
-É bom uma fé qualquer!
-Mas terá de ser fé sentida,
-nem sequer tem fé quem quer

Xavi estava petrificado.

Pensava agora em todas as coisas que a mãe lhe ensinara sobre a fé…
Sabia bem que para viver a vida na vida, precisava de amor, solidariedade e verdade!
Desejava ter mais vida depois da vida, para isso precisava de fé!
Agora compreendo porque faz tanta falta ao meu avô, a fé!
Quero segurar a minha fé com todas as forças do meu ser!
-Moleiro, meu bom amigo!
-Para viver a vida na vida tenho amor, tenho solidariedade, tenho verdade, quero segurar a minha fé com todas as forças do meu ser, mas falta-me a verdade da minha fé!
-Poderá existir fé sem verdade?
-Estarei eu a deixar fugir a minha fé?
-Xavi meu bom amigo procurar a fé e a verdade é como encontrar o lado mais quente e o lado mais fresco do sol.
-Agora vai, encontra a tua fé e a tua verdade e reparte com o bondoso do teu avô!
-Tu pudeste encontrar o lado mais fresco e o lado mais quente do sol!
-Comigo só podeis aprender a verdade!
-Nada mais podeis aprender com um pobre velho sem fé.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por setblog às 08:06



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Julho 2013

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031

Posts mais comentados