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Segunda-feira, 21.08.17

EXTRATO 4- "D.O.H.C.D." Carta a Canize)

Depois de uma ausência, para memória futura e para partilhar com meus amigos, publico hoje uma carta colocada no mar em 18 de setembro de 2012.

 

 

“Querida CANIZE”

 

Não te esqueci um segundo que fosse e todo o meu tempo de liberdade de pensamento, tem sido “Tempo de Reflexão”.

A incerteza e a busca têm vindo a dar lugar à verdade e à descoberta e têm contribuído para a eternização da “Memória e do Pensamento” dando sentido à plenitude da vida do “Homem Perene”!

As progressivas descobertas da ciência têm vindo a demonstrar todas as razões em que tu me ajudaste a acreditar.

Todos os meus anseios culminam numa vida de descoberta e verdade. Essa enorme confiança que me conforta, anima a ti eu devo minha querida amiga.

Sei que todos os dias me encontras nos teus caminhos da “Memória e Pensamento” e isso te apraz; quero também dar testemunho da felicidade que há em mim, por todos os dias e instantes sentir que os nossos caminhos se enlaçam e tudo o que temos de comum e nos une é bem mais forte que a distância que separa nossas vidas materiais.

Espero que tenhais fruído um tempo de amor e alegria, nestes escassos dias que viveis nesta vida material.

Eu tenho lutado com determinação e alegria contra a tenebrosidade da incerteza, continuando incessantemente na prática do bem, em busca da verdade e contra a antítese do conhecimento, onde se insere a gigantesca narrativa da fé.

Porém quero dizer-te que penso ter descoberto a razão que dá consistência a essa fé, a fé que fala Paulo, nas epístolas ao Cristianizar Romanos, Hebreus e outros, essa fé: - que se para muitos não passa de uma estratégia para obtenção de secretos propósitos; para muitos outros milhões, é uma inabalável convicção da qual fantasticamente se socorrem quando em horas de aflição e com ela convivem como da mais pura verdade se tratasse.

Mais do que nunca reconheço hoje a obstrução à descoberta, à paz, à justiça, à razão e sobre tudo à verdade entre os Homens, provocada pela fé. Também hoje, mais que nunca tenho a plena convicção da utilidade da fé, na vida material dos humanos que a comportam, o que atesta e justifica a razão da sua criação e da sua existência, ocupando vasto espaço no campo objetivo da “Memória e Pensamento”.

 

Depois de anos e anos, seguir cegamente uma fé Paulista.

Depois de questionar e pôr em causa a consistência dessa fé.

Depois de menosprezar a mesma fé por falta de respostas.

Depois de renegar a própria fé, que um dia jurara difundir.

Depois de afirmar que a fé não passa de uma gigantesca e abstrusa narrativa.

Depois de todas as contradições registadas na própria fé.

Eis pois que afirmo a descoberta da sua fundamental substância: - a utilidade da fé!

O que confirma e atesta a convicção de muitos e reforça a ideia da estratégia de outros.

É essa descoberta que aqui e agora, com enorme prazer e muita saudade quero partilhar contigo!...

 

O Filho do Mar

 

Caminhava eu quase perdido e por vezes rastejando na pesquisa de algum bom lugar, para fazer pesca apeada, pelas falésias do “Cabo Espichel”.

Houvera tido um fugaz encontro com um velho indigente, aninhado numa minúscula gruta, rasgada nas gigantescas lâminas sobrepostas, oblíquas e polidas de formações sedimentares, entre as águas cristalinas do Atlântico e o alto do gigantesco rochedo que constitui o fantástico promontório, no estremo Oeste de Portugal.

Ao ver aquele Homem assustei-me, não era crível algum ser Humano permanecer naquele lugar.

Ao observar a pequena gruta, pudera verificar a inexistência de qualquer elemento básico de vida, assim como a total ausência de qualquer objeto de pesca ou de uso pessoal, utensílios de confecionar alimentos, iluminação, ou outra, apenas e só um monte de trapos velhos e um pequeno gato tigrado, era tudo o que podia observar naquele exíguo e medonho espaço.

Era difícil imaginar que aquele homem pudesse ali ter dormido uma só hora que fosse.

Fiquei apavorado e disse-lhe:

-Bom dia!

 

O Homem antes de qualquer outra palavra correu a mão ao longo do gato riscado de listas cinzentas, rabo eriçado, orelhas espetadas e olhos bem abertos e ternamente disse:

-Dorme riscas.

Era uma figura alta, magra, olhos quase desaparecidos num rosto coberto de barbas brancas e extremamente longas pegadas com os cabelos igualmente longos, cobrindo-lhe completamente a cabeça e o pescoço.

Sobre o corpo, apenas uma espécie de túnica impregnada de barro negro e um pedaço de pano rasgado sobre os ombros, protegia-lhe o corpo do rude vento e frio que se fazia sentir.

 

Pareceu sorrir para mim e retribuiu:

-Bom dia!

 

E surpreendentemente com expressão calma, protetora e amistosa, adiantou:

-Olhe que não é bom vir para aqui; é perigoso!

 

Ao que eu respondera:

-Bem sei Senhor.

-Mas eu perdera a vereda que costumara seguir

-Agora tenho receio de voltar para traz.

-Quero chegar ao bico dos “mareantes”.

 

Ele logo atalhou:

-Hoje não!

-Ao fim da tarde cairá uma chuva miudinha que vai molhar a laje e torna-la escorregadia e intransponível.

-Se avançar tem vastas probabilidades de dormir no bico alguns dias, ou cair ao mar.

-Regresse pelo mesmo caminho com confiança, ou suba o rochedo usando sempre o vértice côncavo das lajes, suba e desça as vezes necessárias até chegar ao cimo, nunca use a superfície plana da rocha.

-A menos que tenha fé que algum santo o venha salvar.

 

Era de novo o confronto com a fé.

-Que fé pudera eu ter que algum santo me viera salvar?

 

Não por ter desvalorizado o aviso, mas mais por impaciência continuei:

-Eu posso esperar que o Senhor vá almoçar, irei consigo, estou com receio de subir as rochas por este lado sem ver como o Senhor sobe.

-Eu chamo-me João e o Senhor, como é o seu nome, posso saber?

 

-Sou o “Filho do Mar.

-Talvez tenha outro nome mas não me lembro

-Eu vivia com meu Pai e minha Mãe naquele lugar.

 

O homem apontara no sentido de uma pequena enseada não acessível por terra e somente com uma nesga de areia branca penetrando nas rochas e continuava; parecendo olhar para lado nenhum

 

-Minha Mãe no ano de 1938, anos negros da guerra civil em Espanha, fora visitar seu Pai, de ascendência portuguesa e grande lutador republicano, em estado avançado de doença na cidade de Olivença, de onde eram naturais; espanhóis por documentação; portugueses por convicção e amor.

-Minha pobre Mãe ali ficara para sempre às mãos de Nacionalistas, que a tomaram por “Revolucionária”.

-Eu tinha apenas oito anos e ficara só com meu Pai, o “Virgem da Mua”: - seu inseparável barco de pesca e uma gatinha parda de nome faneca.

-Todos os dias íamos ao mar, onde o peixe que apanhávamos era entregue noutros barcos, por troca de alguns víveres que outros pescadores nos traziam e isso nos bastava.

-Todos os dias meu Pai sentado na proa, olhava o infinito e falava com minha Mãe, preparava a sua dose, lançava-a ao mar e só depois comia.

-Meu Pai chorava e fazia comigo uma oração de agradecimento e esperança.

-Todos os dias chegados a terra, subíamos ao santuário de “Nossa Senhora do Cabo”, no alto do promontório e junto de “Nossa Senhora “, com toda a fé lhe rogávamos que cuidasse de minha Mãe e nos protegesse de todo o mal na terra e no mar. Sempre que descíamos ou subíamos a gigantesca falésia, fazíamos uma cruz sobre o peito e agradecíamos a “Nossa Senhora”, a quem confiávamos toda a nossa vida e em quem depositávamos toda a nossa fé!

-No mais atroz sofrimento de saudade e injustiça, mas pela fé, sabíamos ser felizes!…

 

O homem agora deixava cair duas lágrimas que logo se perdiam no emaranhado dos longos cabelos e barba, agora com um brilho lacrimejante nos olhos, parecendo reviver o passado distante e doloroso, continuava:

-No ano de 1941 no mês de Fevereiro, saímos para a faina, estava muito vento, mas o meu pai era homem muito forte e corajoso e avançamos; não havia barcos pelo mar, o forte vendaval transformou-se em violenta tempestade…

-Soprava uma e mais outra rajada com tal violência que partiu o mastro da pequena embarcação!

-Meu pai mandou-me deitar no peneiro e começou a remar, mas a violência do vento, da chuva e das vagas era tanta, que o pequeno barco era atirado de uma vaga para outra como se fosse uma pena…

-Deixamos de ver a ponta do farol no alto do “Cabo”...

-Uma vaga entrou pela borda deixando o barco meio de água.

-Meu Pai lutava tenazmente contra o vento e tentando retirar alguma água, na qual eu já me perdia embrulhado com os apetrechos de pesca ainda a bordo...

-As vagas eram tão fortes que uma inundava a pequena “enviada”, logo vinha outra mais forte que a empinava, vazando a água nela contida, ainda outra e outra que a voltava a inundar e a depositar mais água no fundo, até que a frágil embarcação já submergia até à borda!

 

Utilidade e malefícios da fé

 

-Meu Pai deixou o barco ao sabor do mar e do vento, vazou o barril de água doce que transportávamos, atou uma corda em seu redor, depois atou-a em volta da minha cintura, dizendo:

-Querido filho; o tempo e o mar não nos podem deter!…

-Tenho fé que a Nossa Senhora me ajudará a salvar o nosso ganha pão!

-Vai!…

-Vai com a fé de Nossa Senhora!…

-Nada para terra!...

-Tu consegues, segura-te na barrica e com os pés guia-te para terra.

-Eu irei a nado!

-Reza o “Pai Nosso”...

-Com a fé e a ajuda de “Nossa Senhora do Cabo”, havemos de nos salvar!…

 

O Homem avançara dois pequenos passos e estava agora sentado mais na ponta do rochedo debruçado sobre o mar, que se ia tornando mais negro e falsamente manso.

Contemplava o mar e o horizonte, parecendo observar o infinito e sem olhar para mim continuava:

-Cheguei a terra exausto, assustado, mas amparado na fé.

 

O Homem chorava agora como uma criança!...E continuava:

-Fé de encontrar meu Pai!

-Fé de um dia ir a Olivença; não vingar, mas honrar a morte de minha Mãe!…

-Fé de voltar ao mar e dele poder tirar o necessário para viver!

-Fé de reencontrar uma vida de paz, amor e verdade!…

 

-O Homem voltava a fazer um silêncio confrangedor que se tornara assustador, só se ouvia o sussurrar manso e lento do Mar, numa enganadora acalmia de “paz podre”. Porém já se fazia sentir no rosto e no corpo o sopro anunciador de vento Sudoeste.

 

Aumentava a instabilidade e crescia o meu receio, chegava-me para junto do gato tigrado procurando algum conforto.

 

O Homem sem olhar para mim continuando a fitar o mar, numa voz quase impercetível continuava:

-Fui moço ajudante de redes!

-Ajudante de calafate!

-Fui gaibéu em Salva Terra!

-Pescador na Terra Nova!

-Fugi da guerra por horror!

-Embarquei em bandeiras de Países sem mar!

-Ganhei novos nomes e nova Pátria!

-Aprendi línguas distantes!

-Fui angariador de gondoleiro!

-Caí nas malhas do álcool e da indigência!...

-Comi restos de cães!

-Dormi em cama de ovinos!

-Vivi sem alma nem beira!

-Percorri mundo sem nexo!…

 

-Eis senão quando, no ano de 1992, após longa caminhada sem chegar a lado algum, apagada a minha história, regressara onde vira a minha mãe pela última vez e perdera meu Pai.

-Do seu conhecimento extraíra o saber que me faz feliz, a mim e ao "riscas"; o homem voltava a anafar o pêlo do gato tigrado.

-É aqui que estou bem.

-Ajudo os pescadores nas previsões de mau tempo.

-Em troca recebo o que preciso, para mim e para as riscas.

-Falo e escuto sempre que preciso a minha Mãe!…

-Todos os dias ouço e sinto o meu Pai é com ele que me aconselho.

-Só aqui encontrei paz, amor e verdade!

-Neste lugar não esqueço mas apaziguo as vicissitudes e contradições de uma vida de outrora, uma vida de esperança com fé!

-As dores de uma vida à sorte, sem rumo nem guia...

-Os danos de uma sociedade de farsas, mentiras, ódios e ardis, onde os valores materiais e individuais se sobrepõem aos valores dos princípios e da solidariedade!

-Só aqui encontro conciliação com o meu passado; com o meu presente, com o mar e com a vida...

-Sobre tudo é aqui que me encontro e cruzo a minha “Memória e Pensamento”, com a “Memória e Pensamento” de tudo e todos com quem já vivi e particularmente de minha Mãe, de meu Pai e da própria “Nossa Senhora do Cabo, que hoje nem sequer sei se ainda existe!…

 

Estava eu profundamente amargurado, pela história do “Filho do Mar”, receoso pelo lugar e pelo tempo, tentando não me deixar cair em pânico, mas sem saber o que fazer, questionei o homem.

-O Senhor tem fé que não chove até ao fim da tarde?

 

De novo um aterrador silêncio.

Até que o homem compreendendo a minha impaciência respondera:

 

-Eu perdera quase tudo com o ciclone de 41, até o próprio nome perdera para sempre e sobretudo perdera o que pensara ser o maior bem; a própria fé!

-A fé que me conduzira para terra, a mesma fé que vitimara meu Pai.

-Só não perdera e fora aqui que reencontrara; o que me transmitira meu Pai.

-Fora ele que me transmitira que hoje não devo subir as escarpas.

-Se te transmiti como podeis subir; fora dele que recebera o saber.

-Se sei viver somente do mar; é porque Todos os dias, todos os instantes, meu Pai me aconselha e na sua “Memória e seu Pensamento” me aconselho e me determino.

 

-Aumentava a minha ansiedade e incerteza e à beira do pânico era de novo assaltado por uma onda antiga de pensamento: -

-Fazer-me-há falta a fé?

-Pela primeira vez sentia o confronto entre o conhecimento e a fé.

 

Quando o Homem abrindo desmesuradamente os olhos e erguendo o rosto na direção do alto do promontório exclamou:

 

-Fora também da "Memória e Pensamento" de meu Pai que extraíra o saber; que para subir esta montanha de dificuldades, antes da fé, preciso do saber.

 

O Homem, agora pronunciava estas palavras manifestando uma profunda confiança e sabedoria. Logo se comprime mais afincadamente no interior da minúscula caverna, remetendo-se ostensivamente a um silêncio petrificante, como que parecendo arrependido do que acabara de contar.

 

Eu ao ouvir o homem ficara ainda mais assustado e ao mesmo tempo ansioso por ouvir mais e mais histórias do “Filho do Mar”.

Como era possível aparecer de novo alguém no mais improvável lugar do meu caminho, a lamentar ter perdido a fé, conquanto anunciava: precisar do saber, antes da fé!...

Ficamos assim por muito tempo...

Se eu estava com receio de ficar ou partir, não menos receio tinha de voltar a questionar o homem.

Passado algum tempo receoso mas muito necessitado de ajuda, procurara de novo encetar o diálogo, pegando na deixa que também outrora mais me atormentara e já em desespero, mas com lucidez suficiente para mostrar tranquilidade, questionara o Homem:

-Pelo que me diz só vai lá acima quando o tempo permite.

-Como pode o senhor viver aqui, sem comida, sem amigos, sem meios, e ao que me diz; sem fé?

 

Depois continuava o “Filho do Mar”; agora nostálgica e laconicamente:

-O mar tudo me levou, do mar tudo me chega!…

-Comida, amor, paz, maravilhosas recordações e sobre tudo a partilha da minha vida com a vida de meu Pai, de minha Mãe e de quem verdadeiramente me ama e sempre amou!

-É tudo o que preciso, eu e o “Riscas”.

Passando de novo a mão pelo dorso do bichano, dizia:

-Não é “Riscas”?

 

Depois com grande determinação e agora olhando o cume do rochedo e elevando serenamente o tom da voz, dizia:

-Eu não subo as rochas com a fé!

-Subo as rochas com conhecimento e confiança!

-Quando me falta a confiança, fico aqui.

-Aqui no meu “Tempo de Reflexão” encontro resposta para todos os meus problemas e sobre tudo para saber viver esta vida de verdade.

-Mais não preciso que o saber, é no saber e na reflexão que encontro todas as soluções para as minhas necessidades reais.

-Hoje não posso ir lá acima, seria pouco provável que pudesse regressar e não tenho outro lugar para ficar com o “Riscas”.

 

-Ainda te digo João:

-Vai subindo enquanto é seguro.

-Mais!

-Não poderás apoiar-te somente na fé!

-Poderás e deverás apoiar-te na descoberta da verdade da própria vida e na constante busca do conhecimento e do bem...

-O homem criou a fé para dissimular o erro e resgatar a absolvição.

-Para depositar boas intenções.

-Para usar caminhos tortuosos e de risco.

-Como refúgio da ignorância.

-Para abrigo e anestesia do sofrimento.

-Para o amparo fitício dos vivos.

-Para suscitar esperança aos deserdados e desvalidos.

-Para muitos ousarem subir rochedos como esse, sem que descubram a maneira correta!

-Já muitos ousaram subi-los sem conhecimento, porém só uns entre tantos lograram alcançar o planalto!...

-Ainda te digo mais João:

-Se ao invés da fé, usardes o conhecimento:

-Não terás dissimulação para o erro.

-Não chorarás a frustração de boas intenções.

-Não subirás por caminhos que desconheces.

-Não te desculparás com a ignorância.

-Não farás o caminho mais fácil poupando-te ao esforço

-Não contarás com falsas expetativas de fitícias esperanças

-Não sofrerás a desilusão de perder o troféu a dois passos do cume da escarpa.

-Com conhecimento e confiança conseguirás vencer a tormenta e chegarás ao topo incólume e triunfante.

-Agora apressa-te que se faz tarde muito cedo!

 

-Obrigado senhor.

-Vou partir com a confiança do saber!

-Mas ainda me faz falta uma última resposta.

-Poderão ter a felicidade de atingir o cume, os que a tentarem subir; desprezando o conhecimento e apenas guiados pela fé?

 

Ao que o homem respondeu sem hesitar:

-Sim!…

-Essa é a grande utilidade da fé!...

-Poder viver a alegria de atingir o objetivo acreditando na chegada triunfante somente pela fé.

-Os que tiverem a felicidade de alegremente lá chegarem, pois louvados sejam e louvada seja a sua fé!

-Aos que ficarem pelo caminho; Direi:

-Para atingir o objetivo com segurança é necessário o conhecimento.

-Ainda te digo por fim:

-O meu pai era homem de grande fé.

-O meu Pai, teve o conhecimento que a barrica me podia salvar e daria para dois, mas com a fé de salvar o “Virgem da Mua”, sua única pertença, ficou para sempre no mar.

-Foi esse o grande malefício da sua fé!…

 

Minha querida amiga Canize, não disponho do teu enderece, poderás estar em qualquer lugar, sempre estarás no meu coração e sei que o “Tempo de Reflexão” e a tua grande união com o Mar, não deixarão de conduzir até ti esta missiva, seguindo a rota de “Gama” e de “Mussa Al-mbique” até à ilha das conchas, onde sempre te encontrará, com rosas rochas presas no teu cabelo e cumprirás a tua promessa de 1944.

 

 

“João Corda”               

Portugal, 16 Maio 2012”     

 

PS - O conteúdo da “Carta a Canize”, aqui apresentado, foi extraído na totalidade de uma carta manuscrita em papel, colocada numa garrafa e lançada ao mar, junto à praia da Foz, Sesimbra, em 18 de Setembro de 2012.

 

 

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por setblog às 15:07

Terça-feira, 18.07.17

EXTRATO 2 "D.O.H.C.D." (Em Guebville)

ABSTRATO 6

No cemitério.

-Sabes Cesário, eu não me detenho em cemitérios! É essa a razão da minha hesitação.

-Sei que normalmente as pessoas neste dia visitam esses locais, se eu não entrar, poderão ficar desapontados comigo e eu pretendo estar bem com os meus novos companheiros, que agora são a minha família.

Cesário, dando provas de ser compreensivo e respeitador dos princípios dos outros, disse para João:
-Então vem aqui que te ensino a ligar a TV e quando quiserdes sair toma cuidado, não te ligues muito com “Algerianos” e Turcos, à noite não vás só para o bar.

João, depois de alguns breves minutos a ver TV e agora já com outros companheiros na sala; saíra dirigindo-se ao quarto onde ficara a ler um pouco, antes de ir para a cozinha da “Foyer” preparar o pequeno almoço.
De volta ao quarto preparara-se para ali ficar todo o dia, lendo e meditando nos mortos das Grandes Guerras e nas suas interações com ele próprio, com Cesário e com os novos companheiros...
João, sabia que a fé dos outros persuadi-los-ia, a contactar mais profundamente seus mortos particularmente neste dia; porém confinados a um espaço criado nos primórdios do Cristianismo, com a finalidade de fixar e pretensamente manter controlados os contactos com os mortos. 
João, sabia que também naquele espaço apenas estariam restos de ossos, que em breve também se haveriam de decompor. Sabia ainda que ali como em toda a parte, fluía a energia da “Memória e do Pensamento”!

Vinha-lhe à memória Canize, os Caminhos da “Memória e Pensamento” e voltava a questionar-se na intimidade do seu quarto:
-Que dirá Cesário aos mortos que vai visitar?
-E os mortos transmitir-lhe-ão alguma coisa nova?
-Ajudá-lo-ão a suportar a saudade da família?
-Ensinar-lhe-ão que não deve acreditar nos Algerianos?
-E afinal em quem poderá acreditar Cesário?
-Em quem acreditava meu Avô; que sucumbira em “La Lys” , às mãos de Alemães?
-Em que cemitério semelhante àquele, algures na “Flandres” poderão estar restos de ossos de meu Avô?
-Todos os ossos de meu Avô, teriam sido devorados por insetos, larvas ou até cães?
-Ter-se-ão decomposto?
-Teriam passado por algumas breves mutações e serão agora parte de outros corpos?
-Que parte de biomuléculas constituintes do corpo de meu avô, terão sido absorvidas pelo trigo, contido no pão, que acabei de comer?...
-Que parte do corpo de meu avô, fará agora parte do meu ser?…
-E da sua “Memória e Pensamento”; o que prevalece em mim?
-Que parte do meu conhecimento me é sistemática e continuamente, transmitido por meu Avô?
-A “Memória e Pensamento” de meu avô e de todos os mortos, flui livremente pelo Universo; poderá alguém pensar ser possível encerrar entre quatro paredes, sob quatro ou cinco, metros cúbicos de terra, a “Memória e o Pensamento”; -o ”Caminho dos Mortos” ?

João, sem querer continuava envolvido na tenebrosidade do seu “Pensamento mais profundo. Nem notara a aproximação de Cesário, que vinha mastigando e estendendo a mão para João, disse: 
-Toma é bolo de queijo; é muito bom é uma especialidade da “Espanhola”, amanhã podeis ir comigo para aprenderes onde é!

João, depois de agradecer, questionou Cesário:
-Então ainda não partiram?

-Não! Respondeu Cesário, tendo continuado:
-Só quando forem nove horas.
-O que me traz aqui é persistir no convite. Os teus companheiros de quarto acabaram de tomar o pequeno almoço, já estão de saída e tu não ficas bem aqui, todo o dia sozinho.
-Vais connosco e ninguém te vai questionar à cerca da tua religião ou da tua fé, cada um tem a que tem; vão longe os tempos em que era obrigatório ou proibido, esta ou aquela, hoje felizmente há liberdade até para não ter religião.

João Corda, estremeceu de emoção, num milésimo de segundo percorreu a sua história e viu como que uma luz intensa e clara, que envolvera Cesário e toda o quarto, composto de duas amplas janelas, quatro camas, ladeadas por uma mesa de cabeceira, amplo espaço e uma clareira entre os dois pares de camas, ao centro uma mesinha redonda sobre a mesma um amontoado de revistas da fábrica e uma lindíssima miniatura, amarela e preta de um “Peogeot” tipo 63A de 1904 à escala 1/40, que João, observava com todo o cuidado.

Cesário, vendo que a invulgar peça ficara esquecida por cima da mesa, disse para João:
-Guarda-la na tua mesinha, depois logo entregas esta raridade ao seu dono, provavelmente é do Fantunes: - inveterado colecionador, se fica por aqui desaparece.

Continuava Cesário, agora revelando uma requintada postura e um elevado grau de solidariedade.
-Não é bom que fiques por aqui, porque esses fulanos que estão daquele lado, são pessoas muito revoltadas!.
-Se te encontram só, ofendem-te na língua deles e sussurram indiretamente: -“Il est comme um chien”: -Dizem que és como um cão, porque não rezas em público. O problema, é se tu lhes respondes eles podem ser inconvenientes. 
-Eles ostentam de uma forma fanática a sua fé, não aceitam que outros tenham fé, ou culto diferente e se estão em grupo tornam-se agressivos, numa inaceitável prática de confrontação e parecendo quererem assumir posições extremistas!

João, sentia um fogo intenso no seu interior, mas percebia que não era momento propício para revelar qualquer atitude ou posição quanto aos seus próprios valores da fé e estendendo a mão para Cesário, num gesto de amistosidade, disse:
-Fico muito reconhecido pela tua camaradagem e aceito ir convosco, Cesário.

A viagem ficara aquém da expetativa, enquanto Cesário e restantes companheiros visitavam o “Cemitério das Cruzes” e o “Memorial da Grande Guerra”; João, ficara entusiasmado à assistir e a tentar compreender um jogo de “petanca”.
Ao tentarem um transporte público para a montanha, verificaram que tinham uma imensidão de pessoas na frente, o que os impedia de chegar de dia à montanha, tendo por fim desistido desse passeio. 
Depois de comprarem uma enorme baguete com queijo, dispersaram pela bonita Vila, tendo somente João e Cesário, seguido para a “Foyer”.

-Vais almoçar comigo João!
Dizia Cesário e acrescentava:
-Comigo e com um amigo que está doente no quarto e não sai, vai para três dias. Ontem esteve lá o médico da empresa e recomendou-lhe, além dos medicamentos, um resguardo de cama até dia três.
-Vamos surpreende-lo com a nossa visita e levamos-lhe uma “gateau au fromage” e repetia Cesário: - torta de queijo - era surpreendente e singular, a postura e solidariedade de Cesário, sempre preocupado em ensinar o “Francês” ao seu compatriota e novo camarada.

João, cedo se apercebeu estar na presença de um homem, que apesar de aparentar ser jovem, era por certo uma pessoa experiente de vida e por certo tivera uma educação invulgar: - cortês; solidário; tolerante e compreensivo - ao mesmo tempo, pragmático e exigente; o que lhe conferia um elevado grau e espírito de liderança, levando João, a aceitar de bom grado e vontade as propostas de Cesário.

Cada um empunhando uma enorme baguete e uma caixinha com bolos de queijo, caminhavam lado a lado, deixando para trás a densa folhagem amarela, de plátanos e faias que a madrugada de Outono se encarregara de espalhar pelo chão do passeio; em vincado contraste com a imaculada limpeza e o gigantismo do fantástico parque da “Marseillaise”, onde João, fizera questão de se deter a contemplar as gigantescas “Sequóias” e os majestosos “Cedros do Líbano”. 
Apressavam-se agora pelas ruas em direção a “Foyer”, a um ritmo bem superior, ao necessário num dia de folga!

João, reduzindo a amplitude da passada, olhando nos olhos de Cesário, disse com alguma hesitação:
-Pela amizade que me dispensaste e pela tua exemplar frontalidade, sinto necessidade de explicar a minha retração de entrar no cemitério.

Ao que de imediato Cesário, respondeu sem hesitações:
-Não careço de qualquer explicação, nem tenho o direito de te questionar sobre o assunto: - Contudo se te sentes mais tranquilo justificando - Pois faz favor: - não me incomoda. Antes pelo contrário o que me incomoda é saber que outros vão ao cemitério, apenas para cumprir uma formalidade.

João, ficava estupefato, o seu novo amigo acabara de admitir saber, que haveriam outros que não iam ao cemitério por convicção de fé, mas tão somente por formalidade.
João, fizera uma longa pausa e enquanto acendia um cigarro: pensava:
-Quantos dos camaradas que se detiveram no cemitério cerca de uma hora, terão estado ali, apenas por formalidade?
-Bom!…
-Uns terão ali permanecido por formalidade, outros terão estado na mais profunda convicção da sua fé.
-Por certo, cada um terá à sua maneira compartilhado o caminho pós morte de

 
 

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por setblog às 11:05

Terça-feira, 18.07.17

ABSTRATO 5 (Abstrato e Concreto)

Abstrato 5
-Publicada à dias a foto junta, com a promessa de voltar a falar sobre o que parece e afinal não é: - aqui estou a cumprir o prometido e escrever modestamente algumas palavras sobre o tema “Abstrato”:
-Podíamos dissertar sobre infinitas coisas, mas sendo mais humilde e mais precisos concentremo-nos apenas no termo, “Abstrato”
-Afinal existe ou não o “Abstrato?
-”Platão” defendera que sim; mas que eram ideias colocadas no nosso pensamento por entidades superiores, logo não cognitivas…
-Outros como “Berkeley”, defenderam a existência do “abstrato”, no domínio sensorial, sendo o “abstrato” tão real ou irreal como a matéria. Dizia “Barkeley” que as coisas existiam apenas na perceção, logo se o “Abstrato” era percetível, confirmava a sua existência.
A gama mais clássica de etimologistas modernos define “abstrato”, como: -o que é incompreensível; o que é oposto ao concreto; o que é apenas do domínio das ideias; o alheamento.
Pois eu humildemente, sou dos que aceitam a existência do abstrato em domínios do cognitivo parcelar. Isto é: - para a mesma coisa; uma parcela de observadores podem não compreender, não sentir, alheando-se ou não; para estes a coisa é absolutamente abstrata.
Porém outra parcela de observadores; pode compreender, sentir no seu processo intrínseco de racional e prestar atenção necessária e suficiente para a evolução da compreensão.
Atestando o ponto de vista exposto; comparo: - o expoente máximo de “Pablo Picasso” - “Guernica”, é abstrato? Será concreto para todos? A foto junta é concreta? Será abstrata para todos? A energia do pensamento, é concreta? Será abstrata para todos?

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por setblog às 10:44

Quinta-feira, 06.07.17

ABSTRATO 4 (TR)

 

 

          T R versão corrigida.jpg      Quando em 08 de fev. 2017 publiquei este símbolo, ficaram no ar algudúvidas quanto ao seu significado, é tempo de desfazer essas dúvidas e afirmar que  nada tem aver com "Trampismo", melhor dizendo até talvez tenha alguma de relação.

Passo então a divulgar, "TR" são as iniciais do nome e significa (TEMPO DE REFLEXÃO), nome dado a um grupo de reflexão Africano, cujo grupo nada tendo a ver com qualquer religião, dedicava grande parte do seu tempo à meditação da dos Deuses e da caminhada do Ser Humano.

Foi pois do contacto com esse grupo que resultou o testemunho abaixo descrito e que hoje publico na Página do "ABSTRATO".

 

 ...//...

"-No Tanganica-

 

Por fim Canize, continuava:

 

-No ano de 1950, fui resgatada da missão, por um velho amigo de meu avô de nome Sunil. Com ele fizera uma viagem de barco desde Nacala/Porto, passando por Mtwara, até Porto Zamzibar e ali entregue à família de Sunil; passados alguns dias, fora de novo levada para Mtwara.

-Donde e por mandado de Sunil, acompanhara uma expedição Inglesa, numa caminhada de quarenta e dois dias, pelos vales do “Ruvuma” até que cheguei a “Matagoro/Ruvuma”, no Tanganica, Junto ao “Grande Lago Niassa”, na margem esquerda do “Ruvuma”.

 

-As fés da Macondíndia-

 

-Três países, três religiões, três famílias, três línguas e sem esperança, sem Pátria, sem família, sem amigos, sem religião, sem e sobre tudo sem amor.

-Ali ficara confiada a uma família Inglesa, passando a trabalhar ao lado de outras jovens, no serviço geral e na cozinha no seu albergue, para visitantes estrangeiros e nas horas mortas, no cultivo da sua machamba.

-Na machamba trabalhava com dezenas de outras pessoas, sob as ordens de Guntler, um indígena, de meia idade, cabelos lisos e muito negros, pele cor de lombo de tubarão, homem de respeito e benevolente, distribuía-me os trabalhos mais leves; era com ele que gostava de estar, era homem carinhoso e acarinhava-me como se eu fosse sua filha, com ternura, costumava chamar-me de “Macondíndia”.

-Dizia-se Alemão, mas falava Inglês e gostava de me ensinar, fora com ele que aprendera; também falava Alemão e um pouco de Português. Pedia-me que o corrigisse quando ele errava nos tempos dos verbos!

-Levou dois dias a ensaiar: -”Vou fazer frango à Cafreal”. Depois com orgulho repetia a frase para caçadores e madeireiros Portugueses, que por ali passavam com alguma frequência.

-Muitas vezes era chamado para falar com estrangeiros!

-Quantas vezes pensei, que meu pai poderia ter sido assim!

-Passados três anos, Guntler, partira sem se despedir, já mais soubera o seu fim!

-Na cozinha, era o meu suplício sob as ordens de “Emma Noah”; uma mulher rude, desconfiada e arrogante, se saía fechava todos os alimentos e as próprias capoeiras de galinhas eram trancadas, de modo que ninguém tivesse acesso aos ovos.

-Quando não havia trabalho para mim, forçava-me a catar os carneiros e as cabras até encontrar um qualquer parasita.

-Na machamba, com a chegada de um novo capataz e após a minha recusa à sua tentativa de sedução, caíra em desgraça.

-Desde trabalho forçado, escolhendo para mim sempre o mais duro; do impedimento de procurar sombra; ao racionamente de comida e água, com vexames e ofensas, incluindo à minha mãe, tudo tivera de suportar.

-Com o meu desenvolvimento físico, tornaram-me presa apetecível e fora incluída no lote de meninas que constituíam produto promocional da estância turística.

 

-Tempo da Reflexão-

 

-Quando não havia visitantes, era autorizada a frequentar o “Tempo da Reflexão”.

-Era um lugar singelo, uma casa redonda sem madeiros, nem fogueira, completamente despida de coisas ou símbolos!

-Mas uma casa repleta de energia e amor!

-Ali, falávamos com os vivos e refletíamos nos “Caminhos da Memória”!

-Ali, exortávamos à tranquilidade, à coragem e à honra!

-Faziam-se trocas; de experiências e bens!

-Entoávamos cânticos de louvor ou condenação!

-Exultávamos pelo bem alcançado, individual ou coletivamente!

-Manifestávamos coletivamente, condenações do mal!

-Formulávamos desejos ou rejeições!

-Ali nos regenerávamos das práticas do mal e nos preparávamos para as práticas do bem!

-Ali se evocavam, por louvor ou condenação, de um ou outro modo os acontecimentos e atos mais transcendentes, relacionados com qualquer ser humano; presente ou ausente, sem regras, conceitos, obediências, obrigações, direitos, deveres ou qualquer forma de condenação ou compensação pré concebida.

 

-Naquele exíguo espaço estava contido o principio da descoberta da verdade e do bem!

-O princípio do bem por bem!

-Ali aprendera a viver!

-Aprendera a pensar!

-Aprendera a amar!

-Aprendera que a vida não termina, apenas se transforma!

-Tivera a sorte de ali encontrar o Sr. Carlos Argolão, ex missionário, que por motivos desconhecidos abandonara os votos e voluntariamente, ensinava a escrever e ler, dezenas de pessoas analfabetas. Com ele aprendera, muito do que sei!

-Cada um no seu silêncio, ou em ato proclamatório, convocava os “Caminhos da Memória”; caminhos da “Memória e Pensamento” de seus antepassados; para que pudessem chegar e trazer até si, o conhecimento necessário e suficiente para erradicar de suas “Vidas Materiais” quaisquer impurezas, procurando nos sucessivos ciclos de vida o aperfeiçoamento, individual e coletivo.

-Finalmente concluíra que é possível a Humanidade encontrar um caminho de progresso, contínuo aperfeiçoamento e felicidade duradoura!

-Vinha um novo dia e mais um dia de suplício!

-Foram horas, dias e anos de sofrimento, angústia, e desespero!

-Quantos dias sem comer!

-Quantas noites sem dormir!

-Quantas lágrimas por secar!

-Quantos homens na minha cama, sem nenhum, sequer amar!

-Por fim, após alguns desacatos entre colonos Ingleses e defensores da independência do Tanganica, em meados do ano de 1959, quis o “destino, passado”, que aquele lugar, do bem e do mal, fosse abruptamente encerrado.

-Quis o “destino, passado”, que eu fosse no turbilhão e parasse em “Maapará”, na casa do Senhor Administrador Goulão, com quem tive a felicidade e honra de servir, viver e muito aprender durante quatro anos como se fora sua filha!

-Quis o “destino, passado”, que eu tivesse tido o encontro com o amor de minha vida; Luciano!

-Também trouxera comigo fantásticas razões para procurar ser feliz e transmitir a felicidade aos outros!

-É pois no sentido de transmitir a felicidade aos outros, que tenciono e tenho procurado, propagar a tese do “Tempo da Reflexão”:

-Tese da verdade e do amor!

-Tese que procura demonstrar a relação do Homem com o Universo; a sua ação na diferenciação com seres irracionais; na orientação da sua própria história; na história dos “Deuses” e na criação dos tempos do tempo, a que chamarei: -" ...//...

 

 

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por setblog às 09:17

Domingo, 02.07.17

ABSTRATO 3 (Poder de Deus)

http:/www.facebook.com/fpjoshue

...//...

João continuava em silêncio, o sol baixara subitamente e apenas brilhava no alto da torre de menagem e nas ameias do Castelo.

Ao fundo - no seu traçado serpenteante em redor da montanha onde se alcandora serena, a fabulosa, mítica e histórica cidade de Abrantes; - escorre calmo e pacífico o Tejo, enrolando numa gola de espuma branca os resquícios da velha ponte Romana, a sua superfície estava agora mais brilhante e as duas pontes metálicas que o atravessam, projetavam nas águas estanhadas as suas silhuetas negras, em contraste com os vários tons de verde dos campos e o romântico e luminoso salpicado branco do casario em dezenas de povoados a perder de vista, na ondulante pré-planície da outra margem.

Nesta majestosa e bucólica paisagem podemos usufruir do mais perfeito cenário para uma profunda e transcendente meditação.

Finalmente João Corda, depois de se chegar um pouco à frente e fitando Artur, com um olhar grave e sério, perguntou ao amigo:

 

-O poder de Deus-

 

-Artur, poderão os peixes viver no deserto?

-As águas dos rios poderão correr da foz para a nascente?

 

Ao que Artur, responde de pronto:

-Sim!…

-Se essa for a vontade de Deus, sim!

-Com a vontade de Deus, tudo é possível!

 

João, volta a questionar o amigo:

-Quem seria capaz de evangelizar os camponeses de S. Lourenço, ao ponto de lhes incutir tal , que viessem a acreditar; poder comer todas as sementes da safra; em tempos de fome, pois com muita , as pedras haveriam de brotar fartas colheitas?

 

Artur, fica um pouco inquieto e pretende retorquir, mas parece não estar à vontade, pede a João, para irem até à escola e olhando João, nos olhos pede-lhe:

-Podemos falar nesta questão sábado?

-Eu irei mais cedo e falaremos um pouco, depois aproveito e faço a “R.V.O.” convosco, que me dá sempre imenso prazer.

 

João, não parava de pensar.

-Se é possível, os peixes viverem no deserto! Os rios correrem para a nascente! As pedras brotarem fartas colheitas!

-Bastando para isso a vontade de Deus!

-Então também é possível inibir os homens dos pensamentos e atos conducentes ao mal e será possível dota-los apenas do espírito do bem!

-Bastando para tal a vontade de Deu!

-Então porque matam os homens?

-Porque torturam, ferem no corpo e na alma?

-Porque tantas crianças perecem de fome? Enquanto outros vivem na mais faustosa e opulente abundância?

-Será esta a vontade de Deus?

-Estará a sua omnipotência em causa?

-Não!

-Não posso permitir que em meu pensamento se instalem tais dúvidas.

-O Vigário Faustino terá razão!

-Isto não são pensamentos que eu possa admitir!

 

O dia de João Corda, era severamente ocupado!

Meia hora para chegar ao comboio, uma hora e meia de viagem, meia hora da estação para a oficina, cinquenta minutos para almoçar e fazer o caminho de ida e volta ao refeitório, sobre vagões, carruagens, linhas e brita, oito horas de trabalho, a viagem de retorno, quatro horas de aulas noturnas, mais uma hora para chegar a casa e regularmente ensaiar folclore, teatro e ter uma intensa atividade na "Ação Católica",

João, já quase não dormia de tão grande cansaço e ultimamente tanta tormenta.

Tinha agora para colocar em apreciação, em “R.V.O.”, o grande problema da “Silva & Cunha Lda” e para o enfrentar pensava:

-Como posso eu na próxima “R.V.O.”, propor e defender que os operários da “Silva & Cunha”, devem continuar a trabalhar arduamente e pedirem a "Deus", para terem , que a contenda se resolverá a bem de todos?

-Devem os operários deixar a escola?

-Será isto que eu penso?

-Não!...

-Penso que devem escolher dois entre eles, e irem dizer ao Sr. Silva, que tem obrigação de cumprir a lei e deixa-los sair mas cedo, para que possam entrar na escola a horas. Se a fábrica dá para os filhos do Senhor Silva, irem com motorista para o colégio, os operários também devem poder andar a estudar e se ele continuar a negar-lhes o direito, devem entre eles escolher o que fazer e mostrar-lhes a nossa solidariedade.

-Não podemos nós no movimento contribuir para a contenção da luta dos operários, nossos irmãos!

-Cabe-nos o dever de ajudar os operários no esclarecimento, em geral e das próprias leis que regem a atividade laboral, em particular.

-Sendo os operários a verdadeira e única força que transforma o grão em farinha e pão, hão de por certo merecer a recompensa e terem agora a oportunidade de adquirir formação e conhecimento, que não lhes fora proporcionado na continuidade da escola primária!

 

João, cada vez mais perturbado e inquieto e sem conseguir afastar da sua memória, a mesma pergunta:

-Sendo Deus omnipotente e bondoso porque permite tal injustiça?

-Estará Deus indiferente com as necessidades dos operários da Silva & Cunha?

 

João e Artur. Nem notaram que caíra a noite e João, já estava a atrasar-se para a aula de história.

Os amigos despediram-se cordialmente com o usual toque de; Ombro a ombro e com um:

 

-Até sábado meu amigo.

 

A infindável inquietude, o pouco descanso, a ânsia de encontrar a razão e os caminhos da , estavam a enlouquecer João.

João, não conseguia suportar a ideia de continuar a invocar e sugerir Evangelhos, recomendações e encíclicas, invocar Deus e a , se não sentia a consistência e a razão, da verdade da .

Tornara-se impossível viver a bem com "Cristo" e seus seguidores, vivendo inquestionável e cegamente a .

Num diálogo informal, fora do ato litúrgico, tinha ousado questionar o seu confessor, com as seguintes perguntas:

 

-Deus desconhecia as Américas-

 

-Porque não existe alguma figura notável, oriunda do Continente Americano, mencionada no Antigo Testamento?

-E nos Evangelhos porque não é mencionada a existência das Américas?

-E Paulo, também desconhecia?

-Porque não foram Cristianizadas as gentes das Américas durante os primeiros mil e quinhentos anos de Cristianismo?

-Será que todos os escritores da “Bíblia Sagrada”, desconheciam em absoluto a existência do continente Americano?

-Porque não informou Deus, os seus Profetas nas inspirações dos textos sagrados?

-A virgem de Guadalupe, - tida como a própria mãe do verdadeiro “Deus”-, só se revelou às gentes “Astecas”, após a chega dos descobridores Espanhóis; também a mãe de “Deus”, desconhecia a América?

-Seria a existência das Américas desconhecida do próprio Deus?

 

Porém a resposta que João, obtivera fora mais uma vez evasiva e silenciadora.

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por setblog às 11:49

Quinta-feira, 29.06.17

ABSTRATO -1 (Berkeley)

Abstrato”- Na definição mais genérica e global; a palavra “abstrato” surge definida como o oposto a concreto.

Mais, nas tentativas de descrição mais pormenorizadas surge como: - coisa incompreensível ou de difícil compreensão, do domínio das ideias sem base material.

Na antiga Grécia- "Platão" defendia-se que o abstrato vinha de ideias e pensamentos pré formadas por seres superiores, logo as ideias existiam sem a vontade do ser Humano e estavam limitadas ao alcance da sua formação prévia, donde o “Abstrato”, era tudo que estava para lá das coisas compreensíveis ao ser Humano.

Para o pensamento do filósofo George Berkeleyas ideias “Abstratas” não existem, porque não são entendíveis por outrem, elas são apenas descrições do pensamento individual que julgamos ter!

Em contraponto, ainda que pareçam limitadas ao campo não material da vida, temos hoje a confirmação da maior e mais categórica prova da existência e capacidades criadoras das ideias do “Abstrato” - A gigantesca edificação do “Sobre Natural”

 

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por setblog às 12:29

Quinta-feira, 29.06.17

ABSTRATO 2 (O Operário)

 

 

(Transcrição parcial da obra, em edição, "ETERNISMO DEPOIS O HOMEM CRIOU DEUS".

Autor: F P Joshué.  29-06-2017- 11-02.)

...//...

 "ETERNISMO"

DEPOIS O HOMEM CRIOU DEUS

 

CAP. I O OPERÁRIO

 

 

João, tomava o operário pelas cinco e vinte da manhã e entrava no “compartimento sete”.

O Ti jacinto já ali permanecia sentado, dizia-se que não ia a casa à vários anos e que ali mesmo dormia contra as regras da C P. Porém tinha a complacência do chefe Jesus Corado, que fingia não o ver, ao passar revista ao comboio, certificando-se que tudo estava em conformidade, para nova viagem na madrugada seguinte.

Também Abel, entrara na anterior estação de Mouriscas e já dormitava sentado na frente do velho Jacinto. Numa marcha e via normal, bastariam seis; sete minutos, para o comboio percorrer o espaço entre aquela estação e Alferrarede, onde habitualmente João, tomava o operário.

Porém o traçado serpenteante, transpondo os gargalos afunilados das enseadas, percorrido quase na totalidade sobre velhas pontes de ferro, em velocidade moderada, em múltiplos e constantes ciclos de; -acelera e trava.- obrigavam a velha e corajosa “033”, a gastar cerca de trinta minutos para percorrer os seis kilómetros que separam ambas as estações.

Sempre a assoprar, a lançar vapores e a engrossar as neblinas nos profundos vales do Tejo, o estridente, agudo e prolongado silvar ecoando pelas encostas escarpadas, anunciará aos mais velhos, em aldeias distantes, a eminente chegada das chuvadas de Outono.

Ao chegar à estação do Rossio ao Sul do Tejo começava a festa, se na estação anterior tinham entrado cerca de vinte e tal operários, era ali que a maioria tomava o trem e se dirigia sempre aos lugares habituais.

Salvo no caso de um passageiro ocasional ter ocupado o lugar, todos viajavam no mesmo compartimento e com os mesmos companheiros.

Era numa ou noutra destas duas estações, que João Corda, entrava a correr no velho trem de ferro.

João, gostava de contar anedotas, participar em jogos e até cantarolava menos mal, porém nos últimos tempos andava muito apreensivo e estava decisivamente comprometido com o “sete”.

Não mais procurando outro compartimento. Passava a maior parte do tempo, a ler e a escrever algo de muito enigmático.

Procurava viajar solitário ou refugiava-se no seu habitual compartimento, na maior pacatez, onde habitualmente viajavam os mais dorminhocos.

Hoje, João Corda, tomara o seu habitual lugar no “sete”.

Além do Velho Jacinto, e do Abel, também o Sr. João Rosa, procurara aquele compartimento, por ser um dos mais adequados para quem pretendia recuperar de uma noite mal dormida, ler um livro, estudar ou conversar.

Também hoje excecionalmente ali viajava um casal desconhecido com ar discreto.

João Corda, depois de dar os bons dias, sentara-se ao lado de Abel e começara por fazer alguns rabiscos numa folha de sebenta, que logo guardara na pequena mochila verde militar, da qual retirara um pequeno livro e com notória inquietude abrira pelo separador e começara a ler.

 

As carruagens, eram fantásticas, pena é que não se encontre algum exemplar ou uma qualquer referência na museologia ferroviária nacional. Talvez até tenham sido vendidas ao quilo como madeira velha.

Recorrendo a uma simples descrição memorial, podem ser descritas como uma obra de arte arquitetónica industrial, de rara beleza, técnica e funcionalidade, da primeira metade do século XX.

Viajando no seu interior, podíamos percorrer um corredor longitudinal, lateral com cerca de 12 metros de extremo a extremo, com oito janelas para o exterior e uma porta em cada extremidade, dando acesso a um varandim no topo da respetiva carruagem..

Ao longo do qual corredor em frente das respetivas janelas, oito portas envidraçadas na parte superior, davam acesso a oito cómodos e bonitos compartimentos.

A beleza e comodidade de cada compartimento era verdadeiramente surpreendente:

A toda a largura, os passageiros podiam dispor de dois bancos, estruturados com ripas de faia polida, no assento e nas costas. Cada um dispunha de quatro lugares numerados. Porém muitos dias haviam em que se sentavam seis e mais passageiros no mesmo banco.

Os estilizados bancos estendiam-se até uma robusta porta de comunicação direta com o exterior.

Também cada uma destas portas era constituída por uma parte inferior em madeira exótica polida, sendo a parte superior formada por uma vidraça amovível, em corrediças de suporte, a com o auxílio de uma forte correia de cabedal virgem e brilhante. Uma proteção de luz, constituída por um grosso cortinado em fazenda cor de mel, convidava à intimidade no harmonioso compartimento.

Ainda na parte inferior um robusto e estilizado puxador do mais fino e reluzente bronze emprestava ao conjunto uma identidade mítica, sedutora e apaixonante, cruzando um misto de emoções, entre a nostalgia tranquilizante e intimista do romantismo e a inquietude e operacionalidade da vanguarda modernista.

 

Cada carruagem quando observada do exterior, era ainda mais arrebatadora, requintada, opulente, ostensiva e até bélica, mesmo para quem não tivesse memórias dos comboios, de origem Germânica a caminho de Auschwitz.

Em cada extremidade, o rebusto veículo dispunha, como já foi dito, de um elegante varandim, de comunicação com o corredor interior, com um robusto e estilizado resguardado em ferro fundido, acessível pelo exterior, por três grossos degraus em madeira exótica, igualmente resguardados por um elegante corrimão.

Enquadrada entre ambos os varandins, uma longa fachada abaulada no eixo horizontal, cor “verde oliva”.

Ao longo da qual fachada, alinhados e robustos oito patins, em grossa madeira, ressequida e impregnada com pó de carvão.

Cada um destes degraus, dava acesso imediato ao seu correspondente compartimento, através de cada uma, de oito robustas portas.

Cada porta dispunha de um longo e grosso puxador igualmente de bronze reluzente, a parte superior deixava ver através da vidraça a grossa cortina de fazenda cor de mel, como que a emoldurar os diversos rostos que ao longo do trajeto se iam assomando.

A robustez, a ostentação e a grandeza da invulgar unidade, em nada lhe subtraía o caráter de segurança, beleza e funcionalidade!

Aquelas carruagens alinhadas em composições de quatro cinco unidades, constituíam um elevado expoente simbólico da nova estética, da técnica, da força, da robustez e da grandeza das enormes proezas de construções móveis, da era industrial. Cuja maior afirmação logo a partir de meados do século XIX, os comboios puderam exibir na Europa mais desenvolvida e que em Portugal, em meados do século XX, ainda competiam, em pequenas viagens com as modernas carruagens de alumínio e bancos estufados, com aquecimento e compartimento bar.

Aqueles velhos monumentos, mais pareciam enxames, quando nos fins de semana e vésperas de festividades, repletas de militares, operários e outros passageiros, suspensos nos degraus, varandins e unidades de engate, empoleirados onde houvesse um qualquer apoio para os pés; vindos da cidade, faziam a viagem de retorno às suas aldeias.

Ou fazendo desdobramento nos dias de comboio internacional, pejadas de emigrantes e cabazes, a caminho das terras de França.

Ou convertidas em santuários de penitências e orações, quando nos dias 12 e 13 de cada mês, se amontoavam multidões de peregrinos a caminho de Fátima.

 

Tranquilamente João, continuava a leitura no “sete”, enquanto ecoava de novo o prolongado e estridente apito da “033” e uma imensa e compacta nuvem de vapor branco e quente, envolvia aquela fabulosa concentração de potência.

Nos primeiros duzentos metros, o silvar do imenso tornado, formado pela libertação dos vapores, saídos em alta pressão das duas caldeiras e o ruidoso vaivém, das enormes bielas daquele pequeno grande mostro, não permitiam a audição de qualquer palavra de volume inferior a 70 ou 80 Decibéis.

Finalmente tudo voltava à tranquilidade da rotineira viagem, de braço dado com o Tejo, entre suaves encostas e a pré planície, onde o majestoso rio, se esparrama e liberta de 900km, de opressão montanhosa, desde a cordilheira Cantábrica. Adquirindo a sua imagem mais serena entre salgueiros, choupos e milheirais, num silencioso e ondulante escorrer de águas cristalinas.

Qual mansidão, esconde o gigantismo e a brutalidade das próximas enchentes de Outono, quando salta das margens, provocando as mais violentas inundações, desalojando pessoas e animais. Transformando as belas planícies Ribatejanas, em infindáveis lagos de águas barrentas e traiçoeiras.

Agora tudo era só silêncio e a tranquilidade do acolhedor, belo e intimo compartimento.

Apenas era audível o compassado e embalador, toc; toc;…toc; toc; em cada junta de dilatação, dos curtos carris em aço; por brincadeira havia quem dissesse que eram rodas quadradas.

A viagem a partir de ali era curta, apenas trinta e poucos quilómetros, mas com uma velocidade baixa, parando em todas as estações, cedendo obrigatoriamente passagem a todos os outros comboios, parecia uma eternidade, especialmente quando não se aproveitava o tempo com qualquer ocupação.

João Corda, colocava o marcador de página, fechava o pequeno livro e preparava-se para o guardar na pequena barjuleta verde.

 

-A censura tacanha-

 

A seu lado, Abel procurava ostensivamente ler o título da obra, João, sem articular uma única palavra voltou a capa e exibiu-o, à socapa mas com determinação; era sobre a colonização espanhola das Américas, nos tempos de Pizarro, Cortez e outros.

João, fingira não dar importância à curiosidade do amigo, mas deixara ostensivamente a descoberto a capa do livro e fitando Abel, com alguma melancolia, dizia:

-Hoje vai estar neblina até ao almoço!

 

Enquanto nos compartimentos dianteiros se jogava cartas, cantava e brincava, no compartimento “sete”, todos dormiam profundamente, com exceção de João Corda e Abel.

Abel, como que aprovando a escolha literária de João, fazia um sinal com o polegar da mão direita ereto em posição vertical, indicando que sim e sussurrava:

-Deve ser interessante!

 

João, olhando para o lado, como que certificando-se que não havia por perto, gente desconhecida, ou colegas tidos como bufos, - o livro não era obra disponível na banca da “Livraria Bertrand”, existente na estação - fora adquirido no mercado clandestino, através de um amigo secreto de João, este ao ver o interesse de Abel e pela confiança nele depositada, de imediato o tranquilizou, dizendo com total franqueza:

-Segunda feira, já haverei terminado e se estiveres interessado, podeis dispor dele para leres.

 

O comboio circulava agora a dez quilómetros à hora sobre a velha ponte sobre o Tejo, em Praia do Ribatejo/Constância.

João, finalmente arrumara o livro na barjuleta de lona militar e recostara-se no banco de faia.

O dia começava a romper e já se vislumbrava, projetado na encosta da outra margem, o fabuloso perfil do pequeno, mas de uma extraordinária beleza e robustez medieval; o inexpugnável “Castelo de Almourol”, que fora baluarte de Templários, e quartel-general dos exércitos conquistadores, na formação do Reino de Portugal.

Situado numa minúscula ilha com o mesmo nome, no médio Tejo, não a mais de vinte metros da margem e cinquenta da linha férrea do nosso comboio operário.

 

-Então João não quereis ler mais?

Perguntava Abel, no seu habitual ar pachorrento, mas determinado e sedutor.

 

-Não! Não leio mais.

Respondera João, sem se alongar.

 

Continuava Abel, mostrando agora a sua outra face de rapaz inteligente e sagaz.

-Parece que andas cansado!

-Já não vais ver as miúdas, João!

-A “bolinha”, anda em cima de ti, que nem gato a bofe!

 

E expressando um sorriso maroto dizia:

-Se a Aldina não se põe à tabela!…

-No outro dia que vieste de moto, não te viu pela janela, veio para aqui a correr, procurando saber de ti.

-Mas ainda bem que veio, ao menos veio limpar-nos a vista!

 

-Até lhe passou o sono!

Gracejava Abel, mantendo o seu sorriso maroto e levantando o queixo, num gesto indicador para o Mainha; que entrara em Santa Margarida, como de costume e já dormia a sono solto; torcido de boca aberta debaixo da pala do boné de camurça e com a nuca assente nas ripas de faia polida.

 

João Corda, estava bem distante dali e procurando desvalorizar a conversa replicou:

-É bem gira!

-Bom e entre quatro carruagens cheias de homens e rapazes; qualquer uma outra; assim pintainha, cabelos compridos e brilhantes, roupinha alegre e com o joelhinho à vela, também o seria.

 

Chegando à estação de Vila Nova da Barquinha, lá entravam as meninas a ajeitarem-se como sardinha em lata, para gáudio dos ocupantes do “um” e inveja das muitas cabeças que se assomavam nas outras janelas.

As três moças entravam quase sempre no compartimento “um”, onde já viajavam doze e mais jovens e um ou outro menos jovem, que também procurava outras paisagens.

Já viajavam tantos de pé como sentados, apesar do protesto do revisor.

Terminavam ali os jogos de cartas e as “manhãs para trabalhadores”, - como os mais velhos chamavam aquelas cantarolas, anedotas e outras piadas – dali em diante, apenas e só graças, gracinhas e jogos de sedução. Restavam apenas seis quilómetros, com um apeadeiro de premeio e a viagem de sono e sonho, durava oito; nove minutos.

O comboio acabava de chegar e já se ouvia na aparelhagem sonora da estação:

 

-”Estação do Entroncamento”;

-”Atenção senhores passageiros, o comboio que acaba de dar entrada na linha cinco, precedente de Fraternal, destinado a operários, terminou a sua marcha, todos os senhores passageiros devem abandonar a composição, que vai ser retirada para parqueamento”.

 

Em poucos minutos centenas de operários, que nem símios em bananal, esfumavam-se em todas as direções, entre as dezenas de carruagens e vagões estacionados ou em marchas de serviço, em dezenas de linhas cruzadas, numa vasta área com mais de trezentos hectares, saltando por cima de engates, trespassando vagões e carruagens através de portas semicerradas, gatinhando sob as próprias unidades entre rodados, ou ousando numa arriscada boleia de uma composição em deslocação, para a qual e da qual saltavam em movimento.

Não se podia chegar atrasado e o posto de trabalho podia ficar afastado cem metros, ou mais de dois quilómetros. 

Continua em: www.facebook.com/fpjoshue

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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por setblog às 11:38

Segunda-feira, 05.09.16

PORTUGAL FORA DO €URO ATÉ 2024

FORA DO €URO EM 2024

 

 

 

Não , não estou a falar de futebol! Comentadores desses já há em excesso!        Estou sim a falar de economia, que por acaso nem sou formado em qualquer academia, mas tenho doutoramento na universidade da vida e isso permite-me no mínimo, sentir e comentar o que sinto; - Se falhar nas previsões, não me ficará tão mal, como a todos os titulares de grandes títulos académicos.        A minha previsão é que Portugal estará fora do €uro até 2024.        Justifico a minha afirmação por uma das três causas:

-Ou a moeda única, por egoísmo e arrogância política, desaparece.        -Ou Portugal, por sobrevivência, inteligência e livre vontade sai da zona €uro.        -Ou Portugal em processo de auto extinção, acaba por ser expulso.        - Ninguém acredita, exceto o Dr. Passos coelho, ou o futuro presidente do CDS/PP, Dr. Nuno Melo, e mais uma dúzia de empresários e duas dúzias de candidatos permanentes a fundos comunitários, que a Zona €uro se mantenha, só porque a Alemanha e mais três satélites querem, veja-se que a Inglaterra; nem sequer assentou na Comunidade Europeia, quanto mais na zona €uro. Com os Outonos do Médio Oriente, com os desmedidos crescimentos na Asia, á custa de desumanidades, com os consequentes abaixamentos de influência dos EUA, com o êxodo dos pobres de África a caminho da terra prometida e com a desordem na Europa, a situação económica mundial virá a agravar-se ferozmente e aí quem tem prensa é que espreme a massa; - Claro que os vivaços de Estrasburgo e Frankfurt, vão espremer até nada ficar. Donde restará o Nada!

-A Portugal, penso restar uma precária solução: - Reunir homens e mulheres de pensamento próprio e atitudes humanas e solidárias, sem subjacência a doutrinas preconcebidas, nem submissões a caciquismos e acautelando todos os oportunismos.          Formar poder bastante para governar o País com o que o país possa ter, mobilizando sem rodeios todos os meios humanos e materiais disponíveis, sem mendigar nem se submeter a poderes esternos. Pagar as dívidas, contraídas para formar grandes fortunas, durante 900 anos, quando for possível, sem tirar o sustento, a saúde e a habitação de todas as pessoas, ainda que seja necessário usar bens alheios obtidos de forma pouco ou nada lícita. Para tal é necessário renegociar todos os tratados, todos.

- Portugal poderá ser extinto, se Portugal continuar a ser governado segundo os interesses dos grandes grupos financeiros e de políticas manhosas sem Pátria e a perder os seus melhores ativos, cairá cada vez mais na falência como País, como cultura, como princípios e costumes e forçosamente na inviabilidade. Logo o passivo supera o ativo e não restará outra solução senão a liquidação e a respectiva insolvência. Ponto. Sendo entregue a massa falida aos credores e seus lacaios como fieis depositários até virem novos donos, marcarem novas fronteiras e erguerem altos muros bem ao seu estilo. Enquanto isto a comunidade Europeia não deixará de empobrecer o povo até que nos retire todos os direitos plasmados nos tratados vigentes, conduzindo o País á situação de membro não de direito.        Isto chamar-se- há expulsão. JP

        

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por setblog às 18:28

Quarta-feira, 31.08.16

2º ENGANO QUASE FATAL

2º ENGANO QUASE FATAL

. O acontecimento deu-se numa rua no Bº branco, em Setúbal. Um casal jovem passava tranquilo nas traseiras da “rua da cervedeira" nas proximidades da Escola Secundária da Bela Vista. Ele alto com uma barba rala muito preta, rabo- de- cavalo e calças em baixo exteriorizando uma cueca amarela, outrora interior, calçava chuteiras amarelas e ostentava um enorme cadeado cromado pendente de uma presilha e da algibeira das calças pretas de veludo elástico, de modo a mostrar umas longas e musculosas pernas, na T shirt, cor preta, ressaltava uma enorme cabeça de lince, cor bronse.

   Ela mais discreta, mas muito bela, elegante, cabelos cor de trigo, olhos castanhos grandes e redondos saia em godé de seda preta. O que bem conferia aquele par um moderníssimo quadro de estética, beleza e singularidade, contrastando com todos os hábitos de vestuário que proliferam nos alunos da escola. Porém, o que mais brilhava naquele: Talvez - Par de namorados, eram os dois meios seios dourados, que a garota exibia, forçando de quando em vez o abaixamento da sua T shirt, cor terra sena natural e para onde todos dirigiam os olhares.

   Eis que surge o inevitável:- Entre a multidão de alunos que de boca aberta iam contemplando o monumento. Sota-se um grito:- É ela eu vi! é ela que leva!

   Em breves instantes dezenas de jovens alunos se precipitam nas proximidades daquele casal intruso. Alguns mais atrevidos tentam mesmo o contato e gritam não é ela que queremos, queremos sim tirar uma "selfie" com ele, porém afastavam-se de imediato quando o jovem metia a mão no bolso e simulava tirar qualquer coisa.

   Gritava:- Não te aproximes! Vais arrepender-te.

   Novamente vinha uma nova vaga atacando de telemóvel em punho.

     Só uma, sei que está debaixo da "T shirt", é muito raro.

     É dourado!

     Se avanças mais um passo desfaço-te, gritava o jovem já enfurecido e por medo, acelerando o passo.

     Já vários adultos se juntavam e iam tomando partido na causa; -Uns defendiam o casalinho, outros iam apaziguando e aconselhando a moça para levantar a "T shirt", o logo seguiriam em paz.

    Perante tal altercação surge a "Escola Segura" e os ânimos parece ter acalmado, o rapaz apresenta as suas queixas da multidão, mas não consegue apontar nenhum jovem como agressor, começa a dispersão e tudo parece ter terminado.

   Porém uma jovem enlouquecida, salta sobre a jovem, rasga-lhe a "T shirt" numa loucura desmedida, batendo sucessivos disparos de telemóvel sobre os seios eretos e nus, de qual seio mais belo, ressaltava uma pequena imagem azul- cobalto em forma de escorpião.

   Numa enorme frustração gritava a malta:-

   Não é!

   Não é!

   É uma tatuagem; Estúpido!

   E lá iam dispersando perante o disfarce de adultos e sorrisos da polícia,

   Dizia o polícia mais velho e mais experiente estes garotos cada vez estão mais parvos,

   Agora ia aparecer no peito da miúda um pokémon.

   E ainda por mais dourado. - afirmava o mais novo querendo mostrar ser mais esclarecido no assunto.

 

 

 

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por setblog às 21:29

Sábado, 23.07.16

Outro louco (Braivik)

Á cerca de quatro anos, neste mesmo espaço escrevi:-" Seria mais punitivo tratar indivíduos como Braivik, apenas e só como loucos. Sim! Refletindo nos ataques que o mundo, tem vindo a sofrer nos ultimos anos, extraímos um fator comum a todos os atentados. A ÂNCIA DE PROTAGONISMO DOS SEUS EXECUTANTES. Vemos depois como os loucos atos, teêm o assentimento de outros loucos e assim se vâo multiplicando as escolas de loucos, que sendo tratados como religiosos, esquerdistas, direitistas, ou simlesmente como interpretes de pensamentos assassinos, vão engrossando as galerias de heróis e ídolos, para os seguidores loucos. -Pois bem, estaremos nós a incentivar a formação de exécitos de loucos? Estaremos a colaborar na entronização e elevação de loucos á categoria de heróis. Se os loucos forem tratados como loucos, terão seguidores? Haverá alguém que siga um louco? São direitos do homem a informação e a liberdade de expressão e também a liberdade de viver em paz e educar os seus filhos na amizade, na verdade, na justiça e sobretudo no amor. É urgente colocar os loucos em ospícios, afastados da sociedade. É urgente assegurar que as mensagens de loucura não poluam as nossa casas e as nossas escolas, é urgente assegurar que as mensagens loucas não passem com a mesma prioridade e disimuladas entre a sagrada liberdade de expressão. 

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por setblog às 11:07


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